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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A música e o sentir [INCEPÇÃO (25.03.10)]

 

<<     Reservo um pouco do tempo que me resta para escrever. Neste momento que tento escrever não observo nem sinto, quase que nem penso como se tudo o que passa na minha se evadisse quando o tento transmitir. Sei que isto acontece vezes sem conta, e consigo algumas vezes chegar a onde quero chegar, mas sempre por caminhos alternativos e frequentemente bem mais complicados. Questiono-me constantemente por que o faço, e vou encontrando respostas na minha vida que por sua vez também não as consigo dizer, transmitir, facilmente, alem de que talvez elas só façam sentido para mim.

     Estou a ouvir George Michael, um cantor célebre dos anos 80 e 90 para quem não sabe, e ainda teve músicas de sucesso neste milénio mas que se diluem com a existência de outros bons músicos. Estou a pensar, ‘realmente este homem tem uma voz e um dom especial para a música’, assim como por vezes observo noutros músicos, se bem que dizer isto possa ser relativo para muita gente [talvez me pareça tal a mim porque me habituei a ouvi-lo]. Mas este músico em particular, estava aqui a pensar, que primeiro diziam que era gay e, agora, julgo ser assumido, assim como há outros assumidos, como Elton John, músicos de grandes sucessos que têm grandes vozes e grandes músicas, mas que são gays. E, no entanto, não se lhe pode retirar o mérito que tem e o sucesso que tiveram e podem continuar a ter, apesar de terem optado pela vida que levam privadamente. A mim faz-me confusão o facto de os homens gostarem de homens e mulheres gostarem de mulheres, como que isso significa para mim ser ‘contra-natura’, e realmente vai contra a lei da existência animal, da continuidade das espécies. Só mesmo o homem para transformar tudo o que devia ser lei, e compreendo um pouco que possa acontecer certos casos, mas se não fosse a comunicação que existe hoje nunca teria imaginado que o mundo poderia ser tão diferente de como eu o sinto. Mas quero eu reafirmar que tendo ele, George Michael a vida privada que tem, tendo ele os gostos que tiver, ele tem boas músicas, assim como Elton John, e falo como amante da música e segundo aquilo que posso compreender, que se calhar é muito acima da média, modéstia à parte. Cresci com estes sons destes homens, e nem por isso me tornei gay, mas eles deram-me um sentido apurado para a música. É claro que eles foram alguns entre tantos, e talvez eles tenham sido dos mais marcantes daquelas épocas, eu estava a crescer, as músicas eram passadas nas rádios constantemente, eram o nascer de uma nova aurora, a aurora audiovisual, aquela dos anos 80 e 90, aqui no meu Portugal, num mundo que eu descobria paulatinamente, numa imensa vontade de viver. E aqueles sons que para muita gente não dizem nada, porque nunca se habituaram a ouvir tais músicas, ou agora, porque não são do seu tempo (de agora), ou ainda porque simplesmente não são fanáticos por música, para mim são os alicerces da minha vida. E no entanto eles são gays ou tornaram-se. Mas eu aprendi a sentir com o coração o mundo que me envolve, no caso da música eu sinto-a com o coração antes de tudo, depois o que o músico é ou como apresenta o seu vídeo musical ou ainda o que faz se vier a saber o que faz, não alterará o valor da música, porque a música, o sons musicais são analisados puramente. O bom sentir é um sentido que todos tem, mas que muitas vezes anda camuflado por outras coisas da vida, talvez outras maneiras de sentir e julgar, peremptoriamente a maior parte das vezes, o que se passa no mundo, ou porque não se quer aceitar aquilo que é melhor do que nós, aceitar o que é a realidade das coisas, o sentimento de beleza Universal. Isto é o mesmo que dizer numa metáfora: Há um bolo para apreciar e ao mesmo tempo há whisky para apreciar; eu apostaria que o ‘sentimento Universal’ diria que o bolo é bom e o whisky é mau, pelo sabor. Mas sei e compreendo que há culturas que se enraízam em certos homens e que lhes leva a dizer que whisky é que é bom e o bolo é uma grande porcaria, e preferem ingerir o whisky a comer mais bolo em detrimento do whisky. O que é bom é sempre bom, em qualquer lugar, porque o sentir dos homens tem um denominador comum, a raiz do sentimento humano é única, simplesmente o homem quer – ‘ou a natureza impele-o a’ - transgredir a sua natureza sentimental, cria culturas desastrosas que acabam por ter seguidores incautos ou desinformados que entram por uma vida que sem querer escolhem, não pelo supremo bom gosto Universal, mas por causa última de uma cultura que se cria em redor de certos hábitos. Mas o homem vive e sobrevive, incrivelmente. O organismo reitera constantemente a sua capacidade de auto-regeneração. Mas a vida é como é, não fui eu que a inventei, não fui eu que inventei ou invento regras, só me é permitido jogar, nem que as regras sejam as mais estranhas. Hoje em dia, a música está a tornar-se uma banalidade, qualquer dia todos nascem com uma veia musical e têm a hipótese de fazer grandes músicas, mas talvez já não tenham a ‘universalidade’ que tiveram estes e outros músicos dos míticos anos 80 que fizeram parte do imaginário de massas. Tem e terão mais hipótese de divulgação mas serão, como parece que estão já agora a ser, abafados pela imensa comunicação emergente que se a evolução continuar, apenas mais uns músicos de talentos.  >>

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Completo

     Deitar cá para fora. Inspirar, mas também expirar. Ir buscar as energias interiores, ‘amassá-las’, dar-lhe forma de uma maneira coerente e correta. O Sagrado acontece, portanto, muito cuidado com o que se diz. Sim, muitos sabemos disso. E, contudo, continua-se buscando a verdadeira essência de tudo, num cansaço incompreensível e esgotante, mas inevitável. As ferramentas que se utilizam para atingir o Saber absoluto são erradamente adoradas, quando, são apenas meios e contextos mutáveis no maior ou mais curto espaço de tempo para O conhecermos, O nosso destino, Tudo o que podemos saber numa vida ou num momento. A ciência é um dom do Universo e da Infinidade que nunca estará acima de Tudo e no entanto muda o mundo, não obstante, também destrói e me faz indagar o que é ‘isso’ de ‘mudar para melhor’, quando o mundo está cada vez mais poluído, doente, desgastado e explorado rumo ao tempo útil de existência. O tempo de outros entendimentos, descobertas e compreensões ainda não chegou, e, no entanto, avança cada vez mais, avassaladoramente para a humanidade e para o mundo, num destino que se adivinha num espaço temporal vital cada vez mais perene, como se tudo tivesse que acontecer como acontece, onde nós, somo uma ínfima parte da Grandiosidade que sentimos e para a qual contribuímos, para a evolução deste Universo, o Bem absoluto que irá tomar conta do Ideal Verdadeiro, apesar das grandes convulsões existentes e de um fim anunciado. Um fim completo, desejaria eu, sabendo que nem mesmo eu entenderei um dia o que digo, direi ou foi dito. Vivemos num mundo de ideais. A mentira grassa num patamar inalcançável para mim, mas dou por mim a indagar se não será um mal necessário para combater o próprio mal que se quer sobrepor desde sempre ao Bem. Pessoalmente tenho que lutar pelo Bem; Gostava de não ter medo do fim, da indiferença, da dor, do nada que já um dia foi tudo, do momento final ou dos momentos finais; simplesmente acabar… completo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Apelo aos instintos

      A vida tem um propósito, algo (grandioso) sucedeu para que ela surgisse e algo a fará continuar bem para além da minha existência, diga o que se disser; somos impulsionados a agir, a movermo-nos até não mais poder, a fazer o que quer que seja, bom ou mau, com as repercussões que esse ‘fazer’, essa ação terá. A vida escapa-me velozmente. Durante um ínfimo de temporalidade eu sinto que ultrapassei o próprio tempo, absorvi-o com uma rapidez tal que tudo me parecia possível; ultrapassei-o como a maioria dos jovens o farão, mas, agora, o tempo vai deixando-me cada vez mais cá atrás, como que tendendo a abandonar-me; menos mal quando tenho tempo de refletir sobre a minha condição humana (ainda penso que isso tem valor), no entanto sem saber particular algum, não possuo o saber do concreto, algo que me faça poder viver; se bem que de nada me tem valido (aparentemente, na globalidade) todo o tempo que eu pude usufruir, como se fosse uma perda desse mesmo tempo, dadas as minhas ambições para a vida, visto isso neste momento. Antevejo sofrimento (e acho que não é pessimismo, é realismo), mas em maior quantidade, para mim, na ordem daquilo que já senti, e nem consigo exprimir o que sinto e senti como também daquilo que sei, talvez não me seja permitido fazê-lo. Sei que muitos devem estar pior, e, eu, eu não consigo compreender (apesar de me parecer que compreendo muitas das vezes), ou melhor, eu não consigo estar satisfeito, tenho o instinto da insatisfação, sempre o tive, porque realmente a vida levou-me a tê-lo sempre presente. Tenho que arcar com toda uma envolvente que não escolhi, com um corpo e um espirito frágil, apesar de não dos mais frágeis, frágil no entanto; e tudo confluiu nisto que sou hoje. Na beleza de ser jovem, há todo um apelo aos instintos que nos faz viver, que nos faz tentar superar os momentos que se dão, que nos faz ultrapassar ou suportar os atritos que se dão, a ter uma esperança vinda da força da vida em si que nos impulsiona a experimentar e a conhecer mais e mais. Este mundo é um verdadeiro apelo aos sentidos, em que tudo gira à volta da sexualidade, da continuidade dos seres, algo que eu não fui abençoado à partida, pelo contrário, fui amaldiçoado por algo que me transcende, não compreendo. Por sua vez o instinto da insatisfação levou-me a ir ou tentar ir ao encontro da explicação do ‘porquê’ de tudo ser como é na minha vida. Toda essa busca fazia sentido, mas agora sinto que a justiça me escapa, e esse sentido se perde. A vida apela-nos aos instintos, e eu não fui capaz de lhe corresponder minimamente, ou, pelo menos, atempadamente. Tudo em mim é tardio, fora de tempo, como se uma sina caísse sobre mim com regularidade. E eu estou enlouquecido, enfurecido (e nem o manifesto porque seria pior para mim, porque já não consigo), sabes: ‘ I’m mad’. Quanto tempo perdido, quanto desencontro na minha vida, tanta peça que não encaixa no puzzle que ela é (conseguirei eu fazê-lo algum dia?) Quanto apelo aos instintos de sobrevivência, quantos chamamentos para que seguisse determinados caminhos, antes, e agora tendo a ir para o vazio, em verdade tenho medo do pântano que vejo à minha frente. Mas o instinto da sobrevivência puxa-nos (me) ao máximo e já me puxou ao máximo de modo a estar aqui e agora. Sempre pensei que tudo acontecesse naturalmente, mas uma coisa é a realidade, outra coisa é o nosso desejo, ou, quiçá esse desejo não passe de um sonho, muitas das vezes. O instinto sonhador acompanhou-me também até hoje, e apesar de muita coisa não acontecer naturalmente, como eu o desejei, sempre foram acontecendo muitos desejos, sem por isso, no entanto, colmatar uma necessidade suprema que reside no mais alto dos desejos, dos sonhos, o de ser amado como deveria de ser amado, na verdade. Muitas vezes questiono-me se eu não serei realmente amado e não será o meu instinto de insatisfação que me leva a pensar que não o sou (?); é provável e razoável que eu seja amado de certo modo e até certo ponto, e isso contribuiu para que eu esteja aqui e agora, repito. Se sou amado, algo não me deixa sentir isso, e eu já consigo entender, em parte, pelo menos, o porquê de não sentir isso; não obstante, não quero acreditar nas respostas que sinto, no que ‘vejo’, o ‘porquê disso acontecer’; tenho uma grande tranca diante dos meus olhos que por sua vez me fez elevar o pensamento, um apelo de sempre ao instinto do pensar. O ‘apelo dos instintos’ ergueram-me da insignificância (deixem-me passar uma imagem de grandeza), eles me fizeram ir de encontro ‘ao apelo aos instintos’, (permitam o trocadilho) que significa que o meu interior foi em busca do exterior, a necessidade intrínseca foi em busca da ‘oferta’ extrínseca. Eu lutei, o meu instinto me levou a fazer o que fiz e o que fiz foi em busca da eterna ‘justiça’ (a minha ‘busca eterna’ por justiça), algo que me faz mover atualmente de uma forma mais vívida (originalmente, a prioridade foi procurar a compreensão da minha condição humana, algo que já alcancei de certo modo, penso). Se não fosse o apelo aos instintos ou o apelo dos instintos, a necessidade de satisfazê-los, a vida não seria como é. A fome pode ser grande, senão é hoje pode sê-la amanhã, e a necessidade de a satisfazer vai nos levar ao máximo de nós, se ainda tivermos forças para tal… Assim é com qualquer instinto, onde as necessidades (físicas em particular, se quiserem) falam sempre mais alto que quaisquer palavras do que qualquer norma feita por alguém para satisfação dele ou de um grupo de indivíduos a desfavor de outros, marginalizando. As leis da natureza são as leis máximas que existem, o homem tenta contornar e fazer outras assente sobre elas. As leis que regem a natureza dos instintos são as leis primordiais e eu não consigo vislumbrar outras que as possam substituir. Porque fazem as crianças sonhar? Porque sonhei eu? Talvez seja ou tenha sido um apelo aos instintos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Tem sido um momento

                Tem sido um momento, esta minha vida, tal como a de tantos, acho [digo isto para não me sentir sozinho, talvez]. Uma vida tão fugaz e enigmática, tão maravilhosa como absurda. Tudo parece magnífico, tudo parece horrendo (porque sem sentido) e com falta de um valor verdadeiro porque lutar, ou então porque a coragem se afastou de mim. Já me disseram que ‘não dou valor a mim’, mas eu não posso crer que é assim: como já disse muita vez, << eu gosto de mim >>, imenso, mas, há algo mais forte do que eu que me desvaloriza e submete a uma vida estranha e que não queria seguir de modo total (apesar de haver muitas coisas válidas para aproveitar), parecendo que sou eu que me desvalorizo; eu estou esmagado pelas forças superiores que me põem ‘rédea curta’, como sejam a minha fisiologia, o meu temperamento, algo como uma fricção existencial que me envolve e não me deixa ser outro. Admito que no fundo se não fosse tudo isto que me inibe até seria arrogante. Agora, uma pessoa que sou é tão boa, tão simples, a querer que tudo apenas encaixe (na minha vida), que seja feliz na simplicidade, na inteligência, nas forças que restarem enquanto vivo, que até parece motivo de chacota, e sou alvo de chacota em determinadas situações, uma chacota sútil como eu a sinto, muitas vezes subentendida. Será o medo o que me corrói? Ou será a prudência? Até quando ela vai durar? O destino vai-me mostrar a beleza ou o horror de quem fui? Vai-me fazer justiça, a tal que eu tanto apelo, ou isso é mais uma máscara para um mundo de casualidades em que tudo é um acaso, e eu um desgraçado por acreditar que havia normas que regulavam o mundo, que a um ‘coração bravo’ lhe era concedida a verdade pacífica da vida plena e sem rancor. Mas há aqueles que nascem para enclausurar, escravizar, desmoralizar um mundo de pessoas do underground, - como se os tais fossem superiores -, da parte mais junta ao solo, sem meios para irem em busca do que necessitam. Será então que a vida é uma simples luta pela sobrevivência, onde os holocaustos acontecem, e onde um punhado de parvos como eu se põem a questionar a existência e quem são, porque a vida não foi para eles ‘vida’ o suficiente, porque ‘é mesmo assim’. Hei-de estar sempre com as mesmas questões, repetidas blog atrás de blog até que rebente toda esta dor que vai no mundo, ou apenas a dor que vai em mim, de as coisas não serem como eu queria ou pelo menos pensava que deveriam ser, como uma criança que se sente no centro do mundo. Sei que quem vai rebentar sou eu, sou um ‘humano estúpido’ por me preocupar pelo mundo e me sentir triste por coisas que não me deveriam dizer respeito. Sei que se os meus olhos vissem a justiça ainda em minha vida, eu não estaria cá por muito tempo porque eu sou afectado por tudo, o mundo que me envolve, e o nirvana, não sei que significa depois da existência. Eu valorizo-me, mas de que adianta se quilo a que chamaremos por exemplo ‘destino’ me desvaloriza. Mas a minha vida é assim, e ‘Tem sido um momento…!’

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Desmoronamento [gradual]




Por vezes sentimos que o nosso mundo está a ruir, eu sinto. Tudo o que foi e aconteceu parece fugir e parece que não temos mais meios nem oportunidades para repetir as sensações, como se não houvesse esperança. Temos que viver com tudo o que somos e no que nos tornámos, e isto, sozinhos. E, nem toda a compreensão que temos acerca do que se passa connosco é suficiente para apaziguar a dor da nossa existência, ou para mudar substancialmente o que quer que seja ou se passa. Pessoalmente, eu nunca deveria ter tido a retro consciência da minha existência, a retro observação, essa capacidade de estar em constante revisão do que faço, do que fiz, do agora e do meu passado, em análise constante dos meus sentimentos, desta maneira consciente se sentir. Sou demasiado sensível, demasiado humilde. O meu organismo não é suficientemente forte para ter certos modos de viver, de tal modo que se optasse por seguir certos caminhos, certos estilos de vida que certos organismos tem e que conseguem ir superando e viver sem que isso ponha em causa a sua existência, decerto eu duraria muito menos nesta vida – pelo menos parece-me isso, ou estarei errado? -. O meu organismo apela-me à fuga e à moderação, constantemente, para que possa continuar a existir por mais tempo. E sinto que vivo com medo de viver, ou melhor, com medo de perder o meu controlo, de me sentir maltratado, e por isso vivo na defensiva constantemente. Apoio a minha existência na fé, de que um Deus que me transmitiram me tenha com Ele. E eu sinto e vejo a maneira de actuar desse Deus, Deus esse que eu reformulei para viver mais em paz comigo mesmo e com o que me envolve - mas não compreendo a sua maneira de regular o mundo, como se houvesse indiferença na Sua maneira de agir, como se não tivesse vontade própria e fosse indiferente em relação aos seres que vivem nesta terra (mas sei que ao dizer isto, já mais pessoas o disseram e acharam estranho a mesma situação). Por vezes encontro noções na vida, e elas parecem-me ser experiências e lições para prosseguir, mas chego a certas alturas em que essas noções e experiências não têm mais significado. As relações humanas são estranhas, pelo menos para mim. Não posso partir do princípio que todas as pessoas são boas, ou pelo contrário, de que todas as pessoas são más. Só a experiência que temos com elas é que nos permite ajuizar o que elas são em relação a nós. Mas é estranho que o que era bom possa ficar mau, ou o que era mau possa vir a ficar bom, é estranho este constante redefinir de conceitos entre o bom e o mau. A relação que eu tenho com o mundo, é a relação que o mundo tem comigo. Se eu tenho alegria eu encontrarei alegria, mas se eu tenho tristeza, a tristeza vem ter comigo. E não sei que dom e fado é este que nasceu comigo ou então que me foi impingido [e estava a pensar como pode suceder a tanta gente], o de atrair a tristeza, os acontecimentos pesados, a difícil relação com as pessoas e de, em relação a estas, ou me quererem fazer mal e julgarem-me erradamente como mau ou então verem-me como uma pessoa de quem a aproximação não é possível, e desviam-se de mim. Eu falo assim, deste modo evasivo, mas mesmo que eu falasse no concreto, mesmo se eu fosse capaz, ninguém perceberia as ideias que eu queria transmitir, tenho a certeza. Eu estou fora do meu tempo, eu sou um ser fora do comum, o porquê não sei e continuo na busca de entendimento para isto – e já descobri muito, já encontrei muitas respostas para muitas questões, mas só fazem sentido em mim, na minha existência, e ainda não encontrei quem pudesse compreender um pouco que fosse. Por isso, me parece, jamais alguém compreenderia da maneira que eu a compreendo. E isto também se aplica da minha parte em relação aos outros: eu possivelmente jamais perceberei a maneira de sentir e de interpretar este mundo e a vida deles próprios. Este mundo, e estas maneiras de sentir, são aleatórias, tudo é um acaso, e mesmo esse Deus que tanto procuramos é um acaso. E eu procuro obsessivamente muita coisas nesta vida, mas ingloriamente estou pressionado a não ter a liberdade que tanto ambiciono, e tudo isso que quero não me vem a ter a mim, porque o meu ser não deixa. Vejo, a cada passo que dou, que tudo o que faço pode não ter feedback positivo, que tudo pode ser em vão. Isso antes não me preocupava, sentia a maravilha da vida e da existência nesta terra em mim, não receava nem tinha medo da morte, porque compreendia tudo e aceitava tudo naturalmente, mas agora… tenho medo da morte, da prisão e da injustiça, da vida que se esgota em vão, da não satisfação, de não sentir a plenitude da vida [que possivelmente tenho], até tenho medo de viver. O que eu vi ninguém mo pode tirar da minha cabeça, dos meus olhos, dos meus sentidos, a não ser a morte ou a demência. O que eu vi ainda não é facilmente entendível.


Não sei porque a vida é assim, mas é assim que eu a vou vendo, como um ser único que está a passar nesta terra, neste tempo, neste espaço, querendo estar do lado do que está certo, mas vendo que o que está certo e errado é muito relativo, e talvez nem exista. Queria defender ideais e morrer por eles, se eles estivessem certos, mas esses ideais não se revelaram suficientemente fortes, consistentes e verdadeiros para que possa morrer feliz.


E apetecia-me orar ao Universo neste momento, apetecia-me gritar, se eu pudesse. Ó Universo! A minha vida é só porquês e vazio entre eles, porquês e vazio entre eles, vazio entre as perguntas. Eu questiono constantemente a vida, e essas questões, deveriam ser perguntas de retórica. Mas eu não, eu pergunto para obter respostas, e sigo cada vez mais insatisfeito, porque eu não controlo a minha vida. Porquê só falar da finitude, das tristezas, do que não é controlável. Porque não vejo eu a alegria, o infinito, e o incontrolável e me desapego a todas as ordens que algum humano tenta instituir. Tenho medo de não subsistir, e esse medo foi-me inculcado. Uma vez que tenho de morrer porque não irei morrer sem medo, sem pânico pela sobrevivência, sem tristeza? Queremos que haja uma continuidade nas coisas, eu queria, imensamente, mas a ordem das coisas, a ordem deste Universo não é imutável nem é dominável. Porquê este sentimento de me sentir usado, eu não sou chiclete. Onde estão os meu laços? ‘Devolve-me os laços’ toranja. Onde está o meu elo, ou onde estão os meus elos? O elo de ligação com a humanidade. Só quero viver. Queria ser feliz. Tenho bons momentos na minha vida, mas por vezes alguém os quer deturpar e negar e desvalorizar e deitá-los para o lixo. Queria perceber claramente quem gosta de mim e queria poder retribuir. Eu queria, mas há muita gente que também quer, mas… é tão difícil. Como fazer? Quer faça quer não faça o tempo não pára, ele urge. Queria ser forte e não vacilar, não queria mostrar sinais de fraqueza, mas é o que eu mais facilmente demonstro, a minha atitude, simples, humilde, a minha sabedoria, a minha maneira de estar, aquilo que eu pensei que nunca saberia. A idade que eu nunca pensei alcançar, o destino e o infinito que eu sonhava tocar, nas minhas mãos, nas minhas mãos… e eu, tão pequeno, tão ínfimo e com um sentimento de incompreendido e incapaz de ser humano, e até mesmo incapaz de simplesmente ser. Eu, uma explosão de alegria que pensava ser, transformado em implosão, derrotado por aquilo que não entendo, eu simplesmente não entendo. A minha alma em palpitação, o meu ser sedento de prazer e bem-estar, com um sentimento de culpa que penso não me pertencer, completamente a leste da humanidade, que me deseja acolher e ao mesmo tempo sente repulsa por mim.  Eu, que desejava ter a pujança de me afirmar, mas que a vida me nega tal desejo, porque só se afirma quem o acaso quer, ou será que é Deus que quer? Será que Deus quer? Toda a gente quer fazer parte do sucesso, mas do insucesso fogem a sete pés. E eu porque me aproximo? Porque me junto ao sofrimento sem necessidade, como se eu fosse forte e com poder para ajudar. Quando me convenço que não posso ajudar, que não tenho essa capacidade, e só me posso ajudar a mim mesmo, aos outros dar a mão por vezes, nada mais.  Porque me parece que perco tempo, que o meu agir é em vão, que continuo a perder tempo, que todo este tempo tem sido desperdiçado, como se o que faço não interesse para a duração do tempo e do espaço.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sentir como sinto (1)









    Sento-me nesta cadeira que tão bem conheço. Pelo menos conheço a maneira de eu me sentir sentado nela. Não que eu esteja sempre a olhar, ou que eu tenha olhado para ela profundamente e que conheça mentalmente da maneira como ela é feita, o pormenor do seu encosto tão bem conseguido e dos seus braços de encosto tão bem desenhados. Realmente, quem a desenhou é artista. Mas eu não, não sou observador, limito-me a sentir e a analisar o que sinto, faz já muito tempo, limito-me, no caso da minha cadeira, a senti-la, simplesmente, e a sentir (analisar) a maneira como ela me faz sentir. Entrei por esta vereda já faz muito tempo, talvez tocado por um dom desde que nasci, para compreender quem sou, o que sou e o que fui, porque, talvez, me tenha apercebido que o caminho ia ser difícil, o ambiente da minha vida  que eu ‘vislumbrei’ à nascença (antes mesmo de ver visualmente e antes de ter consciência) era negativo, como se houvesse um condicionamento enorme daquilo que eu queria ser, algo que, sei hoje, punha em causa a minha existência. Sei agora que eu era (já não quero dizer ‘sou’ - e isso é óptimo) uma crise existencial antes mesmo de eu sentir essa crise racionalmente e compreender abstractamente esse meu passado que fui reconstruindo na minha mente. Tento pôr em palavras aquilo que sinto, mas sempre me foi extremamente difícil fazer isso. Sempre fui muito fechado e muito pouco expressivo. Desenvolvi, à medida que o tempo passou, a característica de me tornar um espectador atento e observador (sendo neutro no contexto, tal como um espectador televisivo), à medida que me ia tornando cada vez mais fechado, reforçando essa característica da qual nunca mais consegui sair e dificilmente sairei completamente porque tornou-se numa característica de mim. Desenvolvi de tal modo essa característica em que me tornei, que me sinto péssimo no centro das atenções e não consigo facilmente fazer parte activa do contexto social em que me encontro, sou completamente o oposto (ou pelo menos já fui muito mais) de um exibicionista, ou uma pessoa extrovertida, que gosta de se manifestar na presença dos outros. Se ser exibicionista não é uma característica apropriada, sei, por experiência própria, que ser o oposto (que é aquilo que eu sou ou que sinto que sou) também é uma característica desvantajosa, ainda para mais no mundo de hoje, que até se ‘pede mais’ para se ser extrovertido e um ser social. E para compreender ou descobrir aquilo (aquela ou aquelas coisas) que não me deixam ser uma pessoa normal no que diz respeito ao relacionamento social eu tenho trilhado mentalmente caminhos e mais caminhos, tenho pensado e repensado sem parar, tenho comparado ideias sem fim, tenho comparado incomensuráveis situações da minha vida, tenho inventado e reinventado situações (para descobrir uma linha de verdade), tenho tentado ir ao cerne dos problemas, na ânsia de ainda ir a tempo de remediar tanto estrago que tem havido na minha vida devido à falta de um equilíbrio que me falta, uma normalidade na vida. Como pessimista que tendo a ser, vejo difícil essa ‘normalidade’ vir a concretizar-se, vejo muitas variáveis contra as quais tenho que lutar  e contra as quais sigo lutando, para chegar a bom porto. Mas no meio disto tudo há a verdade da minha vida, há situações e ideais que são os motivadores de tudo isto, que é a minha vida. Contudo, vejo que no meio desta tempestade nocturna, há um farol que me guia. Sinto que faça o que fizer, aconteça o que acontecer, há um sentido, há forças que me hão-de suster, há uma maneira única de dar sentido ao mundo, e essa maneira é o meu espírito, é  aquele que eu sou, o Eu com o qual me identifico e que mais ninguém pode valorizar do que eu. E vejo-me como um ser que luta, na verdadeira acepção da palavra, talvez de modos misteriosos e não visíveis, a maior parte das vezes. Mas é esse mistério daquilo que eu sou que me faz ser forte, porque a aparência é muitas vezes enganadora.