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sexta-feira, 1 de maio de 2009

A caminho da meta









Sigo, como se houvesse um destino, a caminho da meta, depois de muitas metas ultrapassadas e outras que espero que ultrapasse, até à final. Preparo cada momento em que vivo (que vivo como se fosse, sempre, o último dia) para entrar em glória naquele momento que me transportará para não sei onde – nem o saberei jamais, muito provavelmente – se for transportado, para ser o que quer que seja, algo (muitas coisas provavelmente) com outra forma da que já tive um dia. Tento viver como se fosse o último dia, mas não nos extremos, não a desafiar o que é dado como certo, não na loucura de querer usufruir tudo em pouco tempo, nessa loucura que, por qualquer motivo, me parece querer possuir em muitos momentos e que possui, parece-me, muitos homens. Como todo o homem, eu sinto, tenho sentimentos e uma auto-consciência deles muito acima do homem comum (quero acreditar nisso). Com a minha abstracção, eu transcendo-me e crio filmes e situações na minha mente, eu vivo milhares de vidas e situações que me podem acontecer ou poderiam ter acontecido e nem por isso sou o homem mais bem preparado para o que há-de vir. Como qualquer homem cai-o no mesmo erro vezes sem conta, como se o que eu sou, a maneira como tendo a manifestar-me, a acção que me guia, me atraiçoasse sempre em situações idênticas e não conseguisse mudar tal aspecto ou tais aspectos de interagir com o mundo. No entanto sou uma unidade corpórea e feito de material finito, como todos os homens, e toda a minha grandeza espiritual, um dia, não terá o sentido que tem agora. Constrange-me essa indefinição do que serei eu depois desta existência, como constrange a muitos outros homens. Constrange-me o facto de que tudo tem um fim, e toda esta linguagem não terá mais sentido a partir de certo momento futuro, quando todo o mundo acabar. Constrange-me tudo o que perco e sei que perdi, injustamente e conscientemente, a maioria das vezes por culpas que não me pertencem, por motivos que me transcendem e eu tendo a descobrir e compreender. Penso que desde sempre a crise existencial fez parte de mim. O meu nascimento foi uma crise existencial e paradoxal. No entanto, cresci com esperança e fé de que algo de especial, que fizesse sentido, me esperava. Agora vejo, por vezes, que isso não é como eu expectava.


Sigo, por vezes com controlo (pelo menos parece-me assim) das coisas que me envolvem, entendendo-as, pelo menos. Penso que ‘entender’, ‘compreender’ o que se passa, é controlar. Mas, muitas vezes, esse controlo deixa de existir e começo a sentir-me à deriva, como um barco sem leme nesse vastíssimo oceano sem princípio nem fim. E tenho medo quando assim é, quando tudo começa a escapar ao controlo, quando deixamos de ter capacidade de assimilar e lidar com o que se passa nas nossas vidas, quando não estamos ‘à altura de’, quando o vazio nos corrói, a solidão que não percebemos de onde vem, quando o equilíbrio do organismo fala mais alto e se sobrepõe aquilo que desejava – mos sentir, – querermos estar bem e não estarmos organicamente e fisiologicamente bem -. Quantos sentimentos (!) por mim não passam por cada dia que vivo. Quanta raiva não engulo, por vezes. Quantas imprecações (!) eu não lanço a esta humanidade que me faz sofrer, estes biliões de seres que existem nesta terra e que geram o caos – pelo menos na minha mente -. Quantos ideais (!) eu vejo em cada ser, que não levam a lado nenhum, no tempo, façam o que fizerem (mas o curioso é que muitos deles acreditam naquilo que são esses seus ‘ideais’) - E comparo esse ‘acreditar’ dessas pessoas, com a minha fé e esperança de jovem em desenvolvimento, que eu tive, aquela coragem, que pensava eu que me acompanharia até ao fim dos meus dias -. Quanta alegria (!) eu já não tive e se perdeu na imensidão do tempo. Quanto desejo de prosperidade eu já não desejei para a humanidade (!). Quanta felicidade jovial (!) eu senti por pensar que dava os passos certos na minha vida – quando na verdade eu caminhava no sentido da despersonalização de quem eu sou, por motivos que tento descobrir. O quanto eu quis pertencer a esta imensa legião de homens (!), acreditar naquilo em que eles acreditam e, mais tarde, ser defraudado por tamanha expectativa. Sou um homem desiludido, é isso, somente isso. Um homem em que o mais básico lhe foi negado, e não estamos a falar de comida para a boca, de roupa para vestir ou de uma casa para morar – que isso não me faltou, ainda, porque me têm restado forças para ir lutando pelo essencial, e por estar minimamente integrado nesta economia global -. Estou a falar de algo que jamais entenderei, faça eu o que fizer. Como o mais natural que se tornou em perversidade, por Iavé (!), no que a humanidade se transformou, como perverteu, conscientemente (com uma nova consciência), tudo o que era natural, como o homem desrespeitou a natureza - Quando falo de ‘homem’, falo nessa larga maioria de seres humanos que ‘regem’ a consciência colectiva, esse senso comum (sentir comum) -. E eu não passo de um homem comum, no entanto. Eu estou imiscuído nesta sociedade, neste mundo destes homens, do qual eu também o sou, e só faço sentido por eles. E foi e é neste meio em constante mutação que eu me desenvolvi e desenvolvo, ate que uma força maior me vença. Mas, e se eu fosse um ‘ser especial’, na verdade? Que significado teria isso para os outros homens e mulheres? Que vantagem eu terei se for esse ‘ser especial’? Na verdade todo ser é especial, mas vida corrompe-o. Parece-me que os melhores dias da minha vida pertencem ao passado. Neste momento encontro-me, bastas vezes desencontrado, no entanto, com uma nova esperança a renascer, porque sinto novamente que compreendo, pelo menos um pouco, que seja. Não sei o porquê de tanto queixume, mas decerto tem uma razão de ser, mesmo que eu não a veja objectivamente. Quantos não choram para que tenham pena deles, actores da vida que na verdade são seres humanos como qualquer outro, mas que por vezes choram falsamente para tocar no lado de solidariedade e empatia do outro que os ajudam, merecendo ou não. Quem é falso terá que aprender com essa falsidade. Eu queixo-me, com razão ou não, no fim tudo terá sentido, ou no entanto, nem por isso, e só o vazio restará.


Falando como falo, a melancolia subentende-se neste caminho que trilho, - tanto no caminho da vida como no caminho das palavras escritas -, assim como outros conceitos análogos, palavras que não me apetece dizer neste instante. Transmito uma parte obscura que a vida tem, como a vida de qualquer pessoa, que é única na sua vivência ímpar. Eu sei que faço vibrar aqueles que sentem como eu descrevo. A nossa maneira de sentir é como uma osmose, se perceber-mos o que lê-mos então estamos a sentir da mesma maneira, contudo não com os mesmos circuitos activados. Assim o é ‘ao vivo’ com outra pessoa ou pessoas, a interacção leva a que haja osmoses de sentimentos tão intensos quanto o que conseguimos absorver e gerir. Somos estimulados e quando acontece isso o nosso ser leva-nos a que dê-mos uma resposta a esse estímulo, automática ou pensada, coerentemente ou descontroladamente. Precisamos do estímulo para caminhar até à meta. Precisamos de motivação para agirmos, e se somos motivados isso leva-nos a crer que estamos a agir bem, nem que na verdade isso não aconteça. Mas, dentro de mim há alegria, mesmo que me queiram fazer sentir o contrário. Em mim há mais ainda do que eu consigo imaginar. Eu mexo com os sentimentos que gerem os homens, os meus sentimentos são o de qualquer homem, mas com um auto-sentir esses sentimentos de um modo especial, que ainda estou para definir e descrever num futuro que não sei qual é nem se irá existir. E se um homem têm força, tem que a utilizar no caminho até à meta. E se um homem tem palavras, um homem tem que as utilizar nessa senda, para construir a sua vida, e alcançar novas metas. Nem que essas palavras caiam que nem castelos de baralhos de cartas um dia. Nesse caminho, a pouco e pouco, vamos deitando para fora o que de nocivo temos no nosso interior poluindo o ambiente exterior, purificando o ambiente interior, quem somos, para atingirmos a meta purificados. Toda a dor tem de ser abandonada e superada. Se assim não for, de outra maneira será. O tempo urge, e as metas estão à nossa frente.






terça-feira, 7 de abril de 2009

Perseguindo a luz.










 


Estou constantemente atrás daquilo que quero ser. E mesmo sem me aperceber, sou-o, desta maneira. Ando constantemente nas nuvens na finalidade de tocar os céus, de tocar aquele azul imenso que me inspira e me eleva a alma. E a tal altitude eu vejo o que me envolve, a imensidão do que me envolve. Mas quero atingir o sol. Quero chegar àquela estrela que está mais além e me fascina. Quero acelerar, mas ao mesmo tempo tenho medo. Prefiro ir sempre um passo atrás, pelo menos. Não gosto de me adiantar, mesmo que tivesse meios para tal. Não quero perder as sensações, mas também não quero ser possuído por elas, e, no entanto continuo a perseguir a luz. Quero sentir-me seguro, mas não quero cair na apatia e no vazio, por isso persigo a luz. Queria exprimir o que sinto de uma maneira que fosse perceptível. Mas o que sinto não é facilmente perceptível. O que sinto não é facilmente dizível. O que sinto é uma caixa de Pandora. O que sinto é puro ouro jamais encontrado. E continuo na senda da luz, na esperança de algo faça sentido. ‘Sentido’, um conceito criado pelo homem, para simplesmente dizer que a direcção, do que quer que seja, que exista fisicamente ou idealmente, é o fim – ‘do pó viemos e ao pó havemos de voltar’ -. E tenho uma paciência de Jó na busca dessa luz que me ultrapassa. Vejo o que mais ninguém vê, desta maneira, destas perspectivas que é pouco provável que vejais. Meu coração estremece cada vez mais, a dor agudiza-se e nada nem ninguém deste mundo consegue mudar aquilo que em mim se criou e a maneira como me criei. No entanto, eu amo e continuo perseguindo a luz que me ilumina, mesmo sabendo que poderei nunca alcançá-la. Neste mundo, hoje como sempre, salve-se quem puder. Peçam à sorte para que a vossa vida seja bem – aventurada. Eu só posso pedir por mim, porque posso muito pouco, porque sou um simples humano e não um deus. Já me esgotei a pedir por quem não conhecia, pensando que isso era bom, e, parece-me, isso foi indiferente, visto destas perspectivas com que agora vejo, mas talvez não possa dizer que foi uma perca de tempo, afinal foi a minha vida passada que não posso negar e esquecer. As vozes e o tipo de pensamento que fluem das escrituras perseguem-me, a sensação de Deus está sempre comigo mesmo que a tente negar. O que sinto está bem escondido e não se quer mostrar. Sou tão influenciado pelo que leio que talvez fosse melhor não ler. Talvez devesse apenas pensar e nem manifestar-me. Mas não, um homem não se pode deixar apagar, e ‘o caminho é para a frente’, nada volta ao que já um dia foi. Sei que a nossa energia não é infinita assim como a energia do que provoca a luz, tudo tem o seu tempo de duração. E assim me deixo abater com facilidade. Sinto o fim, como se estivesse próximo. Não sei se é a estas sensações que eu deveria dizer ‘viver cada dia como se fosse o último’. E escrevo, simplesmente para falar, porque falar faz parte do homem, e, para quem sabe escrever, deve-se escrever para não se esquecer do que isso é, e esquecer-se de quem se é o que se anda aqui, neste mundo, a fazer. Escrevo para deixar um trilho por onde possa voltar se me sentir perdido, para saber quem sou, um dia, quando o Alzheimer quiser tomar conta de mim, se bem que sinto, sinto intensamente, que não irei chegar ao limite que desejaria encontrar. Simplesmente sinto-me a definhar. Sinto que o tempo me ultrapassa e o espaço deixa de ser suficiente para mim. Imagino constantemente o limiar da vida, o momento último da existência, a linha que divide a existência do espírito neste corpo com uma outra existência que será diferente da que a agora usufruo, pedaços de mim que irão fazer parte daqui e dali no Universo enquanto ele existir, nalgum tempo, nalgum lugar, onde quer que seja. Será que devemos viver com ‘o fim’ sempre em vista para que possamos viver cada dia como se fosse o último? Eu vivo, mas isso é desgastante, retira muita energia que deveria ser investida de outra maneira, mas não pode ser de outro modo, sei-o. E sei que não é o fim que é o pior, que nos gera frustração, pior do que o fim e o que nos gera frustração e atrito em nós, em mim (em particular) é a sensação de que passámos o tempo a perder sempre um jogo, oportunidades, ou o que quer que seja, que devíamos ter conquistado para a nossa realização e termos consciência que não conseguimos. Realmente estou dessintonizado e dessincronizado com o mundo, muito provavelmente desde que nasci, ou talvez desde que fui concebido. Vejo e oiço, nas minhas reflexões, aqueles que me dirigem a palavra e que perturbam a minha caminhada na perseguição da luz, aqueles que me dizem coisa do tipo que eu ‘não era esperado’, como se eu não pudesse ser amado. Abomino todos estes seres que assim o dizem, eles estão a mais neste mundo e não eu. E mesmo que eu os abomine, isso não os matará, se bem que mereciam o sofrimento de setenta vezes o sofrimento que eu sinto. Para mim o tempo é escasso, e isso deveria servir-me de consolo como já um dia senti. Talvez eu não seja mais o mesmo, tenho uma nova vida, e alem disso sei quem fui, simplesmente sei quem fui, o que me torna num perito em se ser quem se é. Os sentimentos são altivos, o bem acima de tudo. E personificamos aquilo que sentimos. Mas também somos dissimuladores. Dissimulamos o que sentimos. Sejamos quem formos, seja eu quem for, estejamos onde quer que estejamos, esteja eu onde quer que esteja, o objectivo está sempre à frente, no agora e no depois, e nunca atrás, naquilo que não se pode recuperar. A luz nos iluminará até ao fim, assim seja, a luz me iluminará até ao fim, assim é. ' It is not my time '.






sábado, 21 de março de 2009

No coment

Sê quem tu quiseres, se puderes sê-lo. Senão, sê, simplesmente, ou ainda, seja  o que fores, és sempre. Porque nada do que se é tem importância, se bem que até tem muita. É a lei da vida, o paradoxo que reina neste Universo, no nosso ego também.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Inspiração









Procuro a inspiração. Para isso tenho de caminhar, tenho que sentir, tenho que ser espicaçado pela vida para me mover. Tenho que procurar as minhas motivações internas quando estou parado. Sem o estímulo tendo a ser um homem inerte. Mas com o estímulo já não reajo da mesma maneira que reagia, estou mudado. A minha maneira de sentir o mundo é diferente. É bom saber que mudei e que se muda. É triste saber o que se perdeu, não poder ter feito nada para ser diferente este trajecto. Ando e vejo e oiço. Sinto, e associo o que sinto com o que senti, utilizando a minha maneira de analisar as minhas acções. Faz sentido. Estarei no bom caminho? Pergunto-me. Terei eu a possibilidade de remediar a minha trajectória? Poderei eu reformular a minha vida? Mas tenho que passar à acção, e a acção já não está propriamente no meu âmbito. É só pensar, tão simples quanto isso, pensar. E, pensar, pode ser tão em vão como falar, como utilizar as palavras, para preencher o tempo que nos resta, quando não temos mais nada para fazer, ou talvez por uma necessidade de desgastar as ideias. Estou a leste. Ausente de ideias ou estímulos. E o mais estranho é que ao mover-me, eu deparo-me, faça o que fizer, com um turbilhão de sentimentos e ideias que me deixam sem reacção tal é a imensidade e a violência com que me assaltam. Tudo o que eu interiorizo vem ao de cima naqueles momentos, sobretudo os sociais, como se tivesse o meu inconsciente a trabalhar de uma maneira consciente, e onde a automatização que devia ter das minhas acções não se encontram. E então sinto-me baralhado, confuso, sem saber para que lado me hei - de virar. Mas como vim eu parar a um lado (oculto) da vida que me é estranho (ou era, e agora o estou a interiorizar) e que não sei se haverá outros que o vejam desta maneira? Mas deve haver outros, os suficientes para estarem em conexão as almas nesta maneira de sentir. Será que, se assim for, eu terei o privilégio de os sentir a vibrar perto de mim? Será que eu aí vou ser eu? Gostava muito de encontrar o meu lugar, de sentir o vibrar positivo do meu ser, sentir a pertença a um mundo social, a alguém, que partilhasse os meus ideais. Este é o meu mundo. A Terra corre-me nas veias, a natureza pura que eu gostaria de acompanhar tem-me sido retirada. Tenho medo dessa alienação, dessa procura de emprego e não de trabalho útil (que sempre pensei que se devesse ser pelo que se tem que lutar) e desinteresse por trabalhar a natureza e a preservar, em nome de não sei quem. O mundo tem muita crueldade, o mundo humano, os filhos nascem sem amor e sem valores, sem perspectivas às quais se possam agarrar. É duro, mas quando sentimos que temos um fim próximo, e vemos que não podemos fazer nada para mudar essa trajectória, entramos num ritmo de destruição, ou pelo menos de alienação e usufruição do tempo que nos resta, para que os senhores que regem este mundo e prometem futuros melhores, não pensem que sabem tudo, ou que simplesmente podem. Pode haver pobres físicos, pode haver doentes. Mas quando nos vemos impotentes para fazer o que quer que seja para mudar esses aspectos, para guiar o mundo para a perfeição, então caímos aos pés do Senhor, que não sabemos quem é, para que lhe entreguemos tudo o que não podemos fazer para melhorar, ao menos, tal situação. Procuramos a repercussão do nosso sentir nesse Universo. Quero encontrar a vibração do meu ser. Mas quanto mais quero atingir tais objectivos, mais afastado me sinto daquilo que algum dia pensei ser, ou do que na verdade fui. O meu tempo de aprendizagem esvaísse. É tempo de começar a pintar a tela que irá perdurar. Recorro aos sentidos para caminhar e me estimular e então a inspiração chegar. Mas, e mais um ‘mas’, eu sinto diferente da maioria das pessoas, logo estou só, logo não sei como hei-de trilhar esses caminhos incertos, sozinho. Eu sinto de outro modo, e eu sei disso. Recordo, a ambivalência faz parte de mim. Na tentativa de ludibriar quem me queria ludibriar, eu fiquei ludibriado. É tempo de repousar, para recomeçar a partir do ponto onde ninguém ousou chegar.






ocultações









Há coisas que simplesmente se sentem e não se dizem, ou por não termos palavras para as transmitirmos ou porque simplesmente não encontram eco neste mundo para que faça sentido a sua verbalização, ou então por outro motivo qualquer. A minha mente anda desenfreada, faz já muito tempo, mas eu tenho uma conduta dentro de mim, há dentro de mim algo que me rege e me guia, algo que faz com que eu seja aquilo por que me conheço, eu, mesmo que isso não signifique muito ou o que quer que seja para alguém. Sinto-me cada vez mais aprisionado no meu mundo interior. Vejo o passado nas minhas memórias, analiso o meu presente em contraste com o que fui, na esperança de encontrar uma esperança no meu futuro, no objectivo de compreender, no objectivo de encontrar novamente momentos de felicidade. A base de dados que me acompanha é enorme e nem por isso eu me demarco no que quer que seja, no conhecimento. Sei que isso acontece porque não o demonstro, mas em última análise eu não sou capaz. Sou um ser aprisionado. Mas talvez, porque resta sempre a esperança que o contrário aconteça, eu, jamais encontrarei a paz do meu espírito. Em quem posso acreditar? Em que ombro eu posso encostar a minha cabeça azoada? Que fundamentos me farão viver, quando os músculos deixam de obedecer à vontade? Sinto-me culpado de tudo, e o pior é que é verdade, ou melhor, não deixa de ser verdade que sou culpado assim como não deixa de ser verdade que não sou. O paradoxo reina neste mundo, e mais no meu. Eu sinto-me a personificação desse paradoxo, capaz de provocar sentimentos contraditórios ao mesmo tempo nos outros, assim como eu os sinto contraditórios e ambivalentes. É esta ambivalência que me corrói e desgasta a minha alma e no geral todo o meu ser. Porquê esta atitude que me rigídifica e me paralisa, é uma pergunta que me coloco. Porque me anulo a mim próprio? Porque, por exemplo, a certos momentos parecem fazer sentido as minhas palavras e a outras horas estão destituídas do sentido que tiveram? Talvez tenha que ser assim, mas o meu espírito não é capaz de aceitar isso, como se tivesse que haver constância nas coisas, o que na verdade se revela impossível no meu entendimento. Mas, eu compreendo, ó Senhor, eu compreendo com o sentir que me foi legado. E entrei neste caminho do qual nunca mais vou largar, que até me provoca pânico. Porque não posso ter paz, na minha alma, mesmo que tudo estivesse a desabar, como outrora já tive. A paz de viver de acordo com o meu sentir e com o que sou.






sábado, 28 de fevereiro de 2009

Momentos

      Um vazio tende a invadir-me. Tenho medo da apatia. Tenho medo de magoar e ser magoado. Tenho medo de olhar e de ser olhado. Tenho medo das expressões, não consigo entender a minha, não consigo entender se é a minha que provoca as dos outros se… só pode ser a minha. Sinto-me o culpado, o culpado de muita coisa, de coisas que nem eu sei que me dizem respeito (mas parece que o que quer que seja me diz respeito, eu sou o centro do meu mundo, e esse centro está descomandado), desta personificação da angústia que mora em mim, que absorvo dos outros, que provoco nos outros. Vejo a minha face reflectida na face dos outros como se eles fossem meus espelhos. Não sei nada neste momento, sinto-me confuso e tudo o que sei a certos momentos tende a cair por terra como se tudo deixasse de fazer sentido como um  moribundo, à beira da morte, como se a memória não me deixasse saber quem fui e quais são os meus objectivos. Apetecia-me desistir, fugir, esconder-me, sei lá onde. Pergunto-me quanto tempo vou aguentar. Se a pressão voltar sinto que vou ceder, mas vou tentar ser forte e ser digno. A minha expressão é de angústia. E tudo volta a mim, as expressões que eu transmito. Não compreendo o olhar. Navego apenas pelo sentir, pelo meu sentir tentando compreender o dos outros. Não encontro o meu lugar. E sinto tão intensamente quando em conjunto. Sei que não posso agradar a todos. Que angústia (!), vinda de tanta raiva contida. Procuro a quem posso culpar, procuro e não encontro. Nada faz sentido, como digo, em momentos como este. Nestes momentos, não sei o que me guia, quem me guia o que me faz andar aqui. Preciso do meu tempo, e o mundo não me quer dá-lo. Nestas horas não compreendo. Nestes momentos estou em branco. Nestes momentos apenas me lamurio para mim próprio, porque mais ninguém quer saber das minhas lamúrias. Nestes momentos sinto o tempo a perder-se, nestes momentos sinto o desperdício dos meus actos, nestes momentos sinto que estou errado mesmo que queira acreditar que estou certo. Nestes momentos todo o estímulo se esvai e me deixa no vazio das ideias. Sei que ninguém tem tempo a perder com palavras pessoais de um estranho que se chora para que se tenha pena dele, de alguém que ao ler dois textos se descobre logo o método de escrita e de expressão auto – comiserativa. Neste momento como tantos outros eu me exprimo assim. Sinto-me extenuado, facilmente me canso. Procuro constantemente saber a quem pertenço neste mundo, ou será que não pertencemos a ninguém? Sei que se eu não persistir eu ficarei só, mas se persistir nada mudará também para melhor, porque o cancro tende a destruir-me. Que estranho cancro este(!). Permitam-me ao menos eu dizer o que tenho para dizer antes de a minha hora chegar. O meu tempo chegou ao fim. Todo o tempo que virá, por acréscimo, já não me pertencerá, e todos os dias serão como se fossem os últimos dias da minha vida até que um dia o será mesmo. Não sei por que me consomes, mundo. Não sei porque me tiras e me dás apenas o que queres. Vejo o que vai no interior das pessoas, e por vezes isso é mais perigoso que o meu próprio olhar angustiado. Só queria poder respirar sempre. Porque me falta o ar? Como atrás de uma aparência forte e normal pode estar alguém tão fraco e carcomido? (!)Eu só… só queria dizer, só quero dizer que me apetece falar sem dizer nada. Preencher o meu tempo com palavras fúteis, sem significado, tal como o são certas conversas comuns - mas que alguns as são capazes de tornar tão interessantes, com todo aquele sentido emocional, toda aquela assertividade -. Como és capaz disso? Eu só queria poder sorrir, sentindo que me ria com alegria verdadeira, como a alegria que me invade, em pensamentos, a certos momentos. É melhor nem me conheceres, a não ser que queiras saber o que é andar na vida, angustiado. E depois têm pena, ou então pelo contrário, esfolam quando já está morto. Como o mesmo ser é capaz de tudo (!). Estou mesmo desenquadrado de tudo. Não sei que vazão hei - de dar a tudo isto que vai em mim. Ai do desespero que se apodera facilmente. Porque foge de mim a motivação? E se eu estiver mesmo errado? Que paradoxo este da vida e de tudo o que existe. Não sei se me respeitam se me odeiam, não sei quem são tais pessoas, e sei que a certas horas me odeiam e a certas horas gostam de mim e me respeitam. Mas afinal quem somos? Ou serei eu uma ave rara? Alguém que não tem cabimento neste mundo? Porquê a existência do descontrolo? A prisão em nós próprios? Gostava de ser alguém correcto, ao contrário de quem não foi para mim. Poder dar uma palavra de consolo. Mas, agora, é tarde de mais. O preconceito já foi criado e eu já não o posso mudar facilmente. Que seja cada um para si, então. E há momentos em que me sinto por inteiro, e de um momento para o outro deixo de me sentir. As ideias idênticas repetem-se sem fim, e o blog desgasta-se num conjunto de palavras. Cada vez sou mais eu, sem saber ainda o que isso significa, mas ainda tenho esperança de que um dia o venha a saber, ainda espero por esse momento ou por esses momentos.


   

Auto – consciência

 


            Nesta auto – consciência que me possui e que me consome muitos dos meus recursos eu navego sem fim à vista, no entanto, sempre a ultrapassar os limites da consciência. Tenho que ter esta auto - consciência, senão perdia-me. Este sentir intenso de mim mesmo, do meu ser físico e do meu mundo metafísico e do mundo metafísico que me envolve. Por mais que conheça, conheço muito pouco, sei-o. Mas tenho que valorizar o que sinto. Sei que mais ninguém pode valorizar. Talvez não façam sentido para os outros os sentimentos alheios. Mas para mim fazem. Este mundo é estranho, por vezes parece que o conheço, mas fico surpreendido por tudo o que nele surge. Por vezes não sei onde começa e acaba o sonho ou o pesadelo e onde começa e acaba a realidade, como se tudo se interpenetrasse. Já mais vezes o disse, sinto-me um ser estranho, pelo menos sinto que me fazem sentir como tal e vejo que me vêem como tal. Não sei porque causas me sinto assim. Mas sejam quais foram as causas, só posso lutar contra aquelas que são presentes, as outras, as passadas, só as posso imaginar. Não oiço uma palavra de alento. Não vejo uma mão que se estenda. Vejo uma humanidade a caminhar para o nirvana, cheia de esperança por um futuro melhor. E tudo foge, ou pelo menos tenta fugir. Falta em mim algo que é inefável, mas que eu sinto que existe. Sinto que há algo mais para lá das minhas perspectivas. Eu não posso demover o mundo. Sinto-me abandonado, se eu me perder, como um cão vadio. O mundo demover-se-á quando é tarde de mais, como sempre, mas ainda com esperança. Será a felicidade ainda possível? Porque serei um ser especial, se o for? Porquê a solidão, de quem trilha o caminho que nos leva ao além, se não for uma ilusão? Porquê estes caminhos tão vazios?

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O jogo da vida









    Começa. É o jogo da vida. Mas como e onde começa? Alguém o saberá? Vejamos por este prisma: a vida não passa de um jogo geral onde existem regras, mas que nem todos a interiorizam ou as descobrem ou lhes não é ensinado. É como o jogo da vida económica, das regras do dinheiro, inventado por alguém, mas nem todos o conhecem e sabem jogar. Este jogo que é a vida, é jogado instintivamente, quando a razão não tem meios mais civilizados para o jogar, quando as palavras ainda não fazem parte do jogo, quando o pensamento abstracto ainda não existe. É esse jogo instintivo que nos fascina e nos dá sentido (a esse jogo), como se tudo o que fizéssemos fosse magia, onde todo o nosso ser se entrega e deleita com cada passo que se dá para atingir o nível seguinte. É esse instinto de vida, que é fascinante, o não sentirmos o controlo da razão ou de qualquer força que reconheçamos, como se não houvesse regras, ou melhor, podendo havê-las subentendidas mas dominando-as de forma instintiva, como quando sabemos que 1+1 são 2, embora não sabendo a que se refere esse 1+1. Como é bom saber a teoria mesmo sem nunca ter feito a experiência, como é bom saber que é assim sem ter de o provar a alguém, como é bom ter a certeza que algo vai funcionar assim segundo os cálculos e os sentimentos e no entanto sem lhe tocar, a priori, temos a certeza que é assim, sem duvidar. Porque não se acredita mais a partir de certa altura, se um dia aquilo que sentimos era verdadeiro? Porque não acreditas? As pessoas são cépticas. Só acreditam no que lhes é objectivamente dado a conhecer, segundo o padrão perceptivo normal, da norma comum que são as pessoas (normais), segundo a sua maneira de pensar comum, o senso comum. Acreditam que a ciência lhes dá tudo, as respostas para tudo. Querem por o homem a funcionar segundo o esquema ‘causa - consequência’, onde todas as consequências têm que ter uma causa. Querem, à força, pôr leis em tudo, do tipo, quando funciona em todo lado então há uma lei (!). Querem à força atingir a explicação para tudo, o máximo onde se puder chegar. Mas é verdade que antes de o homem ver ele já sente, o sentir é primordial na existência dos seres. Para um homem um dia chegar a ver, ele tem de sentir, e eu vos digo que sinto que é assim. As pessoas que vêem e chegam a adultas esquecem-se disso, pelo menos julgo que uma enorme parte da humanidade cega com o que vê e não consegue sentir, principalmente no mundo da imagem de hoje. Vivem felizes (somente) por verem. Então e o sentir? Aquela causa primordial que gera o que se vê? Não sabem sentir. Para homens verem o interior da matéria, houve o sentimento e a imaginação a funcionar, para verem o que os olhos não viam. Os átomos são esse exemplo. Se alguém sentiu um dia que havia algo que lhe transcendia incomensuravelmente, e o transmitiu da maneira que o sabia transmitir, esse sentimento é válido. Resta é mostrar aos outros esse sentimento, mesmo que não haja imagem dele. O que se sente é verdade. O que se sente não é ilusão, ou é tão ilusório como uma pessoa olhar para uma rocha e reconhecê-la como tal. Agora, há ilusões que são adaptativas, a ilusão que é comum às pessoas e que serve como meio de partilha social, e há as ilusões que não se englobam em tais situações ou ainda não são reconhecidas por uma basta unanimidade e que levam as pessoas a duvidar da sua própria sanidade quando se deparam com tais realidades criadas pelo seu ser. O espírito criador não cede, e esse teima com o que sente e procura prosseguir não negando o que sente, porque negar o que se sente é negar-se a si próprio, e o criador não nega a sua criação. Os homens não são todos iguais, cada um tem o seu ser próprio, físico e espírito únicos, por mais idênticos que sejam os seres com que se identifica. E então cada um tem a sua maneira de jogar o jogo da vida. Cada um se adapta melhor a determinadas situações do que outros. E podemos também falar em visões, que são diferentes, em cada homem, em cada mulher, a realidade segundo a qual cada um é o que é, aquilo com que cada um se identifica no meio dos outros. Isso leva-me mais longe, a unicidade do ser, que cada um tem que aceitar mais tarde ou mais cedo. E falaria em solidão, quando nos vemos sozinhos com o nosso jogo, com a nossa visão, a nossa ilusão, a nossa realidade do mundo. Sentimos a solidão, como alguém disse por outras palavras, quando os nossos sentimentos não encontram repercussão neste Universo de pessoas, do homem no geral. Quando, façamos o que façamos, não nos sintamos reconhecidos, quando deixamos de acreditar em nós próprios e naquilo que sentimos, quando não queremos ou deixamos de ser capazes de lidar com a influência que nos é provocada e deixamos de influenciar. A vida é um jogo, sobretudo de sentimentos, auto-conscientes ou não. Sei que um homem não deve desistir desse jogo. Mas quando acreditamos que o jogo não nos está a ser favorável como fazer para sair dele? O pânico apodera-se de nós, estamos a jogar falsos trunfos, estamos presos na previsão do resultado e ainda temos esperança que esse jogo mude a nosso favor. Perdemos. Baralha cartas e dá de novo. Mas perdemos e perdemos outra vez, continuadamente, o instinto já se foi há muito, resta a esperança de que algo que não controlamos nos dê o controlo novamente. Assim é o jogo de alguns. Não sabem jogar às cartas, nem têm hipótese de vir a vencer, e enveredam por jogar outros jogos que estejam de acordo com as suas capacidades e que se possam realizar com tais jogos. Desenvolvem-se capacidades desconhecidas, fazem render outros homens ao seu jogo e tornam-se campeões, encontram o seu dom natural. E o orgulho, que se tendia a perder cada vez mais com as derrotas de um jogo que não era o seu, renasce. Afinal a vida ainda tem sentido, nem que seja por horas, porque o jogo, por melhor que sejamos, também tende a ter más horas e podemos acabar por perder jogadas. Ah! Mas nesse jogo somos pró! Sabemos que podemos perder, mas somos dos melhores, até porque fomos nós que inventámos esse jogo e fizemos atrair os outros para ele. Ou esses gajos que se tornaram bons já se esqueceram quem foi o Pai do jogo? E assim, um homem morre em paz consigo próprio, no seu jogo, sabendo que tudo o que fez lhe deu felicidade e afugentou a dor, sabendo que jogou um jogo que conhecia bem.






domingo, 25 de janeiro de 2009

A distância que percorri

 


 


    







         Começo hoje, aqui e agora, novamente, utilizando as palavras, desgastando o meu tempo, tentando transmitir o que eu sou a quem me que quer ouvir. Por outras palavras, ou por uma simples palavra: Recomeço. Não é a literatura nem o romance que me trás aqui, pelo menos não é somente isso que me faz escrever, mas sim, o facto de me atrair tudo neste mundo e neste universo, de ter tanto estímulo que me é subjacente. Atrai-me tudo o que diz respeito aos homens e a tudo o que o envolve, tudo o que me envolve. Busco respostas onde as posso buscar, ou seja através daquilo que consigo alcançar. Busco essas respostas na ciência, na Filosofia, na literatura, nas conversas mais banais, na experiência comum, perscrutando o meu interior e tentando perscrutar o interior dos homens e dos seres que existem, perscrutando a natureza no geral. Adoro a abstracção e a imaginação e a elas me ligo mais facilmente. Mas também gosto da realidade, daquilo que os meus sentidos conseguem captar através da minha percepção, a minha realidade. E sinto que alcanço voos nunca antes alcançados quando consigo conciliar o melhor dos dois mundos, o melhor da abstracção e imaginação com a percepção e a realidade, e consigo associá-los na forte inter-relação que existe entre eles. É fantástico (!) eu ainda estar aqui para contar o que vi e o que senti e vou sentindo nesta minha passagem pela existência. É fantástico (!) sentir esta dádiva que me foi concedida, que eu, por momentos, prolongados, senti que podia estar perdida. Eu não sabia onde era o norte, mas tive esperança. E eu ganhei mais um pouco de vida e ganhei imensas perspectivas com toda a experiência que adquiri das dificuldades. É certo que estou a passar por uma fase muito melhor do que as que tive e quero tentar agarrar esta oportunidade que me é concedida para transmitir algo que, porventura, ainda não percebo bem. É verdade que tenho uma grande incapacidade de ser um homem comum, acredito que nasci marcado para trilhar esta vida de uma maneira especial. É verdade que não sou um homem banal, mas não tenho que o provar a ninguém, a não ser a mim próprio. Senti-me tão longe de mim e afinal cada vez estava mais perto de mim, e estarei, se assim continuar. É verdade que tento adquirir e transmitir erudição naquilo que digo e que faço. Não quero ser fanfarrão nem o sou, tenho essa sensação que acredito ser verdadeira. É óbvio para mim que para muitos eu sou um ser desprezível, que tenta apenas um lugar altivo, um ser que não capta a atenção de ninguém. Mas também vos digo, que quem não se vê e se conhece também pode ter mais influência no mundo ou nas vidas de muita gente e seres do mundo do que aqueles que se mostram e que parecem inteligentes e pessoas fora do comum. Todos os seres estão interligados. E quero agradecer a força dos seres que me tocam no melhor dos meus sentimentos e da melhor maneira e que me fazem ter esperança, além de me fazerem sentir um homem deste mundo. Parece-me que a inter-relação entre os seres é do mais maravilhoso que pode haver, sentir-mos os nossos sentimentos a vibrarem nesse espaço infindável, dar-mos e recebermos o que de melhor pode haver, sentir o ‘feedback’ daquilo que somos. Viver é uma vitória, conquistada à partida, sobreviver é uma luta contra o desconhecido.


            Neste momento sinto-me um homem mais livre, porque me vou despojando de toda a carga de inutilidades que me pesavam no meu dorso tal e qual um burro de carga, como uma besta rendida à incompreensão deste mundo e da vida que o envolve, e também devido à sorte, não o posso negar, e, porque não dizer também, a Deus, esse volatilidade que cerca a minha vida. É verdade, senti-me pressionado na vida pelo peso que recaia sobre mim. Senti-me a perder tanto (!). Senti que estava a resvalar em lama para um fosso. Senti a fugacidade da vida, e senti que poderia não sobreviver para contar. Mas afinal, mais uma vez, me senti um ser abençoado e aqui estou eu. Afinal a minha vida não é das piores vidas que existem, e o que senti e sinto faz sentido (!). Mas também sei ver por outras perspectivas: somos carne e um dia seremos um monte de esterco (passe a expressão), por mais que nos custe a aceitar isso. Quantos bloqueios não tenho na vida (!). Quantos entraves ao meu caminhar! Quanta incapacidade de reacção (!). Como sinto nas profundezas do meu ser o saber a questão de que não estou preparado para agir quando deveria agir, não sei que volta hei-de dar a esse bloqueio. Não vejo o momento de estar preparado, mas sei que ele está cada vez mais próximo. A minha ansiogénese é alta, mas já foi muito pior, e ela está comigo há milhões de quilómetros atrás. Quantos nervos não foram abafados (!), apesar de me sentir como uma bomba atómica prestes a explodir. Quantos sonos dormi sem descanso (!) já faz tempo. Mas agora já vejo tudo a ficar mais claro, como uma praia de águas límpidas e pouco profundas, onde se lhe vê o fundo. Eu vi os meus problemas de dentro para fora. Eu continuo a vê-los, e que me seja permitido vê-los para sempre. E isso faz-me superá-los. Agora, sinto que há uma voz que chama por mim, vejo as minhas acções a prolongarem-se pelo tempo, vejo os meus gestos a fazerem, cada vez mais, sentido, apesar de estar sozinho. Mas gostava de ter muito mais tacto nesta vida. Agora sinto que sou cada vez menos um estranho em mim mesmo, era o mundo que me envolvia que me causava essa estranheza, como que a querer marginalizar-me, como se eu fosse algum criminoso. E assim as minhas vicissitudes tendem a serem comuns com as das outras pessoas. As vicissitudes do mundo tendem a globalizar-se. Com tanto adiamento de compensação, em toda esta minha vida, vi a descompensação a apoderar-se de mim. Contudo, embalei os meus sentidos ao sabor da música, e prossegui, devagarinho. Assisti à minha decadência, assim como vi e vejo a decadência daqueles que não estão na norma, daqueles que têm de se subjugar, ou quando não tanto, simplesmente viver o que lhes é permitido. E assim vi homens que se encontravam num pedestal, como reis no seu trono, comungando dos valores que lhes deram e achando que viviam segundo a lei da vida, quando, na verdade, vivem segundo a lei que lhes foram impostas. Vi homens que não permitiam viver aqueles que vivem sofregamente, não conhecendo a Lei do Universo, o traço mais ténue que separa a ficção do que é realmente este mundo. Tive momentos em que as lágrimas me escorreram pela cara, profundamente sentido do que a vida me fazia sentir e me revelava a cada segundo que passava. Não conseguia sentir o amor e a compaixão de quem estava próximo, um alento de esperança vindo de fora de forma clara, que me trespassasse o mais íntimo do meu ser, que abolisse a apatia a que estava votado. Assim era o meu dia-a-dia, magoado por aqueles que me rodeavam, a sentir cada vez mais próxima a morte em vida, a vegetação a tomar conta de mim a cada momento que passava, sentindo o sofrimento que fazia e faz desacreditar as pessoas que dizem que ajudam. Assim foi e assim é. Quanta indiferença (!), quando a gente mais necessita, quanta incompreensão e desentendimento (!), como se tudo fosse em vão, como se um ser nascesse para ser carne para canhão, pisado e gerido por quem tem menos valor, do que quem é gerido, quem é digno. Sim, acredito que há homens com mais valor e homens com menos valor. Porque me sinto indignado? Porque me foi negada a dignidade [.(?)] Porque caminho sujo e vacilante nestes trilhos de morte? Porque não me é permitida a coragem? Ah! Mas eu preservero, só que sinto que preservero para o nirvana. Eu diria que foram muitos dos que passaram pela minha vida que me tornaram num tipo esquisito. E agora? Fogem de mim e abandonam-me, aqui, lamentando-me de tudo aquilo que não posso mudar, engolindo em seco, revoltado, tentando gerir esta cólera que me ia consumindo completamente. Ah! Mas isto tem que mudar, este mundo tem que cair. Devolvam-me o que me foi retirado! Se pensam que me vou harmonizar com o mundo, porque esta vida são dois dias, estão enganados. As palavras têm que ferir quem fere, quem magoa tem de ser magoado para saber o que é a dor. Não se deve ferir quem não fere, como vingança de um mal feito, mas ferir quem fere. A luta tem de existir. E sei que podem mostrar-me os caminhos, mas se não for eu a trilhá-los, de nada servirá o atingir da meta.


E todos os sentimentos possíveis e imagináveis passam por mim, eu os reprimo, eu os ignoro, eu os mato, ou eu lhes dou vida e continuidade ou refinamento. É a vontade de algo que é superior a nós. Sou um escravo dos sentimentos, um seleccionador de emoções, um grande seleccionador (!) e ‘manager’ de sentimentos. A emoção é o resultado, os sentimentos são os jogadores. E neste jogo, constatei que optar pela táctica da ira e da frustração não é solução para encontrar resultados positivos, mas sei que não podemos ficar indiferentes ao que os outros nos provocam neste jogo. A contrariedade nos sentimentos faz parte da vida e faz parte do jogo e leva-nos ao resultado. A fuga à envolvência dos sentimentos também é um esquema que se utiliza como táctica para superar momentos de ataque ao nosso ser.  E contra os inimigos e adversários digo que não têm culpa de eu ter nascido e ser quem sou, mas porque hei-de eu ter culpa de eles terem nascido e serem quem são? Se eles não contribuem para o meu ser, porque tenho eu de contribuir para o deles? Ah! Mas eles hão-de redimir-se.


Ontem, como tantas vezes, observei a chuva miudinha que cai frente ao poste, que por sua vez, ilumina a árvore, o pinheiro que está por baixo, produzindo uma sensação de calma, nestes momentos em que medito, estas noites frias, em que recebo o calor da aparelhagem eléctrica. Por outro lado oiço a música que me envolve e envolveu a minha vida. Retomo reflexões que, pensei estarem perdidas, associações do pensamento sem fim, nesta intrincada teia que me faz crescer e compreender, na medida em que encontro lógica nessas associações e que, muitas vezes, me são negadas pela minha paixão, o meu coração, as minhas emoções, que anda por vezes exaltado com tudo o que tenho passado. Para onde sigo não sei. Mas não sou capaz de seguir o caminho do homem comum. Estou, neste momento, desprendido do mundo e, no entanto, fisicamente, como todos, não posso viver sem ele. Imagino que há coisas que não podem ser ditas antes da altura e do local apropriado. Perscruto esses momentos para dar vazão ao que sinto, para poder viver mais tempo, para ter mais equilíbrio. No entanto ainda me sinto terrivelmente desequilibrado a certos momentos, que querem fazer voltar tudo o que senti, querem assaltar a minha vida de novo. Ainda me encontro perdido muitas vezes sem perceber o contexto que me envolve. As minhas palavras buscam pelo eco das montanhas, pela vibração dos seres, para que o meu som nas se apague em vão. É estranho acontecer nas nossas vidas que vemos todos os perigos à nossa frente  e, no entanto, não conseguir-mos desligarmo-nos, desviarmo-nos ou evitar-mos esse caminho perigoso, como se o destino estivesse escrito, como se eu visse que havia algo a evitar mas o não pudesse evitar como se tudo fosse como um sonho em que vemos os precipícios e o que se está a passar mas não conseguíssemos entrevir nesse sonho pré-determinado. Na verdade, não sei porque levo tudo tão a sério, quando alguns levam tudo a brincar. Eu mesmo já um dia levei a minha vida a brincar. Não nos podemos deixar amarrar e devemos agarrar-nos aquilo e aqueles que estão em sintonia connosco. O sentimento de liberdade é essencial, o vermos os outros com olhos de ver, o sermos capazes de distinguir o trigo do joio, o bom do mau, e atacar-mos tão cedo quanto possível aquilo que está errado, se pudermos…  É importante também, para preservar a nossa liberdade, não perder o respeito por nós próprios e pelos outros. Sei que no meio de tantas palavras e ideias, tal como eu sinto por vezes, a linguagem humana parece ter tanto de útil como de inútil. Como pode parecer inútil a conversa quando o que precisamos é de sentir um carinho recíproco, um afago e um desejo meramente e sinceramente humano, de alguém com quem nos identificamos. Sabes o segredo das palavras intemporais? A linguagem não é tudo e deve fazer parte de algo mais abrangente nesta nossa dimensão humana, senão não fará sentido. É certo para mim também que quem tem saúde e estabilidade muitas vezes não produz e vive muitas vezes para o prazer somente, tenho constatado isso (Ah! Mas tenho a certeza que quando encherem a barriga de prazer vão produzir mais, ou então, nem por isso). Mais, a linguagem plastifica o mundo, dá-lhe forma na nossa mente, e permite-nos conhecê-lo melhor, cada vez mais. Mas chegamos a um ponto em que os conceitos não chegam, a linguagem não é tão abrangente quanto isso, tende a saturar-se com tanta repetição e entropia das palavras. Conquistando este mundo, o das palavras, podemos ir mais além na nossa mente. Associamos ideias e momentos cada vez maiores e com mais intensidade, compreendemos conceitos complexos e abstractos, a metafísica começa a deixar de o ser, atingimos novos recordes e os limites deixam de existir. Porque produzimos e descobrimos novas coisas quando podíamos ficar num patamar de estabilidade e relativa felicidade? Ainda não o sei. Algo nos faz mover. Nada está parado, em termos absolutos. Nada é imutável, por mais que tentemos descobrir ordem e padrões em constância, por mais que tendamos a buscar regras gerais para as coisas. Será que haverá leis no Universo? Algo onde se possa aplicar a ‘causa-efeito’ onde quer que seja, onde conseguimos confirmar que isto provoca aquilo, em qualquer parte? Tudo é relativo, e é relativo a sistemas. E, assim, oiço na minha mente frases como esta: ‘Agarra o sol enquanto ele brilha, entranha-o dentro de ti e fá-lo expandir em ti para que tu sejas uma estrela neste Universo, também’. E pergunto-te: Como podes amar quem não se move, quem não se demove do seu sentir? Como podes amar quem te cega os olhos com a luz da mentira?; Como pode um homem seguir se tem medo de que tudo lhe faça mal, de que tudo o possa liquidar?; Queres o poder, a sabedoria ou o dinheiro? Fará sentido tudo isso? Será que a busca última do homem não é o conhecimento que permita responder à questão última? – Olha-me nos olhos sem ficares indiferente, se fores capaz. Eu faço a gestão da minha vida, porque querem outros fazê-la por mim, porque não me deixam fazê-la? Estou cada vez mais distante do que algum dia pensei estar, nunca pensei que me pudesse sentir tão só nesta vida. Senti o peso da responsabilidade em mim, não sei porque motivo. Mas tento sacudi-lo, porque eu não posso com tais responsabilidades que eu imaginava poder suportar. Eu não posso ser usado como bode-expiatório. Dançando ao ritmo da música, movendo-se ao ritmo do mundo, caminhamos em sentido ao nirvana, pisando trilhos nunca antes pisados. Quereis chamar a atenção de quem? Influenciamos e somos influenciados. Sons que se imiscuem no ar, sons promíscuos, que retiram a beleza da pureza. Afinal que é isso da pureza? Porque olhas assim para mim? Não vês que eu não reconheço o que tu queres, mas sei o teu sentir comum? Não reconheço os teus desejos, mas sei quem és, como se todos fossemos iguais.






domingo, 14 de dezembro de 2008

Tudo

Tudo é bom porque o sentido está no fim de tudo, no auge de toda uma vida. O sentido está na despedida e no reencontro, no adeus e no olá. Só no fim de tudo encontramos o prazer nunca até então entendido, só no fim ou no final das coisas, em que fazemos um rewind (puxar atrás a cassete) e as sentimos a percorrer a nossa mente a uma velocidade fulgurante, à velocidade da luz