Player

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Jóia

 


    Aquele sítio. Aquela jóia escondida. Aquela memória que há-de residir em mim até que a minha mente volte a pertencer ao nirvana. Aquela memória sem fim. Desde aquele dia, que não posso precisar - porque a memória não é precisa, como o tempo, que foi inventado –, que pus o meu passado naquele local, a minha memória, para que não me perdesse. Aquela é a minha caixa negra, que perdurará, mesmo depois de eu deixar de existir. E então, quase que me esqueci de quem era, quando tudo desabou sobre mim. Pensei que nunca mais me fosse encontrar, mas aquela caixa, naquele local, fez – me recordar outra vez. Aquela jóia (!). Aquela força da natureza, que protege, que nos guia - qual estrela cintilante que nos guia -, porque só nós sabemos interpretar o seu movimento. Alguns nascem como que com todos os direitos, e eu nasci com alguns que me permitem estar aqui e agora, sendo quem sou. Alguns nascem num berço de ouro, mas eu aproveitei o simples berço de madeira tosca que me foi reservado para singrar nesta vida - como se eu tivesse chegado a um patamar elevado [Na minha mente cheguei, e estou voando]. Eu depositei tudo o que tinha naquela jóia, quando tive algo. Eu guardei e dei valor ao que já não parecia ter, aproveitei o que já não servia aos outros para que tivesse alguma coisa, como se fosse um vagabundo, aproveitando os farrapos dos outros. Eu vivo (!). Eu o devo a quem não conheço. Eu partilho o meu mundo, com quem partilha, este, comigo, esta terra, a sabedoria de quem sabe inventar e me dá asas para que eu possa voar e ser uma Águia outra vez, tal como uma Fénix renascida. Alguns dão asas aos desejos, porque tudo lhes é permitido, não se abstendo de tal, não sabendo o que é a repressão, a recusa ou a negação, nem a contenção, nem a espera do reforço, tudo o que querem têm, ou então pensam ter tudo quando na verdade não têm nada. E eu pergunto-me porque não tenho o que quero, querendo eu tão pouco? Porque terei que ser um indigente, aproveitando aquilo que outros utilizaram e deitaram fora em condições de utilização, em nome da inovação, de dar o máximo que se puder no espaço de uma vida, consumindo sem freios o que devia ser preservado para outros, como se existisse o seu direito, que merecem usufruir de uma terra bela por muito mais tempo e que se vêem na contingência de sentir que nasceram como se fossem carne para canhão, extirpados dos seus desejos mais básicos, nascidos não com amor mas por uma casualidade do Universo que possivelmente os desejou para equilibrar algo que estava em desarmonia, passando por esta vida sem saber porque respiram, porque vivem, porque bate os seus corações [como se eu soubesse…] – como se eu estivesse a, ou pudesse defender quem quer que seja, como se eu os conhecesse. Não os conheço, mas sei de que lado dos bastidores estão quando eu estou fora de cena, eu conheço o outro lado dos bastidores. Vejo como esses actores vêem e sentem essa realidade que eles criam, vejo que a realidade é uma esquizofrenia, onde se vêem coisa, ouvem coisas, que acabam efectivamente por acontecer, muitas das vezes, neste fantástico mundo humano. Vejo que uns são esquizofrénicos e conseguem viver em harmonia com o mundo [social] e conseguem ser construtivos e deixam – nos viver, eles são úteis. Outros são depreciados a começar pelo nome que lhes é atribuído, porque na verdade não são compreendidos por quem não lhes é inerente a sabedoria nas suas vidas, os pseudo – inteligentes e pseudo - sabedores. Toda a arte destes pequenos grandes génios [pequenos porque não difundidos] é desvanecida por quem se pensa inteligente [e se pensa o mais humano dos homens, quando na verdade é um parasita da sociedade, tanto quanto os inúteis que sofrem pela marginalização e incompreensão], que diz que os que querem ajudar e os afundam cada vez mais. Mas afinal o que é a realidade? Uma vida esquizofrénica e paranóica é o que é, e cada vez mais se está a transformar a sociedade. Vejamos a música, vejamos a imagem, a virtualidade, a informação a circular, o caos, a entropia, querendo significar entropia como desordem do mundo da informação. Os homens gostam de tanger os limites, pôr-se à prova, quando a prova já está predeterminada. Os homens gostam de alargar limites. Mas o limite existe.  Assim como existe o limite do dia, o homem assim o delimitou. E amanhece como se o fim estivesse próximo. Límpido e frio, ou cinzento, quente ou como for, este é o meu amanhecer hoje, amanhã terei outro e serão cada vez mais iguais. Há tantos amanhecerdes quantos homens habitam esta terra, que será injusta enquanto existir, que terá sempre dois pólos, a opulência e a miséria, a alegria e a tristeza, o bem e o mal, enquanto existir esta terra. Nós somos o sentido e o limite, o princípio e o fim. E tudo será como é enquanto existir a memória do homem, recordada pelo homem, que falará para si enquanto existir. A memória. A jóia que cada um deve utilizar quando é mais necessário. Chamem a isso esquizofrenia, um espaço ideal entre a memória e o sonho, um mundo paralelo à realidade, que por sua vez é outra realidade.  

terça-feira, 18 de novembro de 2008

As ideias que se perpetuam

    As ideias perpetuam-se no nirvana, no espaço sideral, onde poucos o podem alcançar, onde Deus é, foi e estará sempre presente. Assim, as ideias morrem na mente finita da gente, mas no Universo existirão sempre.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Ondas de esperança - solidariedade, tolerância e realismo

     Devemos abraçar cada dia que nasce com esperança, como alguém que faz surf e está à espera que a onda se propicie. E a onda tarda em vir, mas a onda, quando persistimos, vem, demore o tempo que demorar. O dia que desejamos está à nossa frente, não podemos desistir. Mesmo que o furacão apareça e nos encontremos no meio dele, a esperança deve estar lá, porque até naquelas ilhas onde o sol brilha com tamanha claridade e as águas são mais límpidas como não há outras iguais, o furacão também passa e destrói, mas nada fica perdido, porque o essencial está lá. Há que ter fé até ao fim, e ser realistas, nada do que é material e corpóreo é eterno, há que aceitar que a antítese está presente neste mundo assim como no Universo, para um pólo positivo há um pólo negativo, para um Universo visível há um Universo invisível, que não se compreende, mas que faz parte do que é visível. Assim, como pode o homem querer prolongar o que é finito, prolongar a alegria quando a tristeza vem, porque se persiste? Porque não saímos de palco nesses momentos e damos lugar a quem a tenha, a outros actores? [Eu já fui actor de outras cenas e cenários, mas retirei-me, mesmo que isso me fizesse sofrer.] A alegria está na transição e na mudança, no crescer e no envelhecer. A vida alegre não está no momento estático eternizado pela foto, naquele que sorriu para um momento de boa disposição. Devemos persistir sempre, mas mudando de cena fazendo um novo cenário, mesmo no sítio onde fizemos outras cenas, mas, agora, esperando por outro momento, o adequado para fazermos as novas cenas e o novo cenário. ‘Fazem-te ver’ que a vida é só alegria, eu sei. Mas a verdade é que a nossa vida tem alegrias e tem tristezas, tem felicidade e tem depressão, de que modo pensas que a vida é? [eu não via isto assim, porque não vês que é assim?] A vida deve ser mesmo assim, e devemos aceitá-la como ela é, persistindo, e se possível com inteligência e vigor. A vida é uma estrada sem fim, se assim o quisermos, se assim o desejarmos, sê – la – há, porque poderemos tanger a eternidade dentro das nossas vidas, que serão infinitas dentro de um espaço tão pequeno, quando aceitarmos que somos o que somos, não seres abandonados, mas seres amados, porque até o mais débil dos seres foi amado, até mesmo aquele que foi mais maltratado. Aquilo que somos pertence a todo o Universo, cada um de nós é um grão de areia numa praia da imensa terra, cada um de nós é um suspiro na eternidade climatológica da terra, feita de sol e amenidade, vento e tempestades. Aquele que se revolta contra o outro, revolta-se contra si mesmo, porque os homens são todo Um só, mas mesmo essa ira lhe será perdoada. Porque não cabe a ira na incomensurabilidade do Universo. E um homem tem de ser duro, duro para a vida que lhe é dura, e um homem morre a lutar por aquilo em que acredita, só é pena que por vezes acredite tão pouco… porque pouco lhe foi ensinado e porque o espírito lhe foi fechado, ou, nunca aberto. Penso nos outros de quem falo como penso em mim, no passado que reconstruo vezes sem conta, naquilo que não voltarei a ser, mas que sempre serei. E sou tolerante para mim mesmo, porque sou único na maneira como faço a gestão do mundo, não haverá ninguém igual a mim, e ao mesmo tempo o que de bom eu tenho e faço, todo o suco, a essência de que sou feito perdurará até aos confins dos tempos, onde tudo voltará a ser o que foi, tenho fé. Não podemos buscar nos outros aquilo que somos, mas tudo que somos pertence a todos os seres. Temos fé numa imagem, num homem, que venha pôr ordem neste mundo. E ele ai está, temos fé nesse símbolo que se pode tornar marcante para a humanidade, que vai encaminhar a humanidade, ele tem poder. Não interessa como lá chegou, mas decerto uma Entidade superiora o quis, foi uma probabilidade que não teria acontecido mais vezes, porque nada se repete e nada volta atrás, assim como nós não nos repetimos. Aceita o beijo da vida. Tudo o que dizes já está dito na eternidade da existência, mas digas como o disseres, se fores genuíno, será ainda mais diferente do que aquilo que és. É tão bom partilhar, é tão bom sabermos os nossos limites e cabermos estritamente dentro deles. É tão bom (!), a evolução, saber que alguém já sentiu o que sentimos, e devíamos agradecer a essa pessoa por nos transmitir o que para ela foi imenso tempo de cogitação, reflexão, até que extraísse o que de bom se poderia tirar da sua existência e poder transmitir aos vindouros que se encontram com as suas palavras. Também temos medo da mudança, claro. Mas a mudança é inevitável, e não há ninguém humano tão superior assim que possa dizer que certa mudança não é útil, que seja capaz de a parar. Apenas podemos encaminhar essa mudança, nunca parar. Quantas sociedades já não houve nesta terra, e nunca, nenhuma tão interactiva como a nossa, capaz de gerar as mais profundas esperanças e ao mesmo tempo gerar o medo mais profundo. Mas afinal, medo de quê? O fim é certo, viver é fantástico, respeitar e tolerar é essencial. Primeiro está a sobrevivência do ser humano, mas depois de os recursos não chegarem, quando novas guerras e catástrofes chegarem, como será? O fim é certo, o sofrimento sempre existiu, mas o homem tem de ter respeito, e o homem será sempre um animal antes de se tornar humano, na acepção positiva da palavra, e esse facto – o de ser um animal - sempre estará antes dele, até ao fim. Como evitar a luta entre os seres, que serão sempre diferentes. O fim é certo, somos tão frágeis (!). Não me sai da cabeça essa evidência – O fim é certo -, e isso me dá alento para usufruir da vida que possuo, assim como gostava que muitas pessoas que merecem o tivessem - esse alento. Sim, sou altruísta. Mas muitos fazem desta evidência um lema, e pensam então que podem fazer tudo, que o sentido da vida está em usufruir, em ter sem olhar a meios, em pisar, em odiar, como se ficassem impunes. E depois procuram apoio quando estão no fundo e um dia descobrem que a vida não é assim como eles a viam, se é que dão o braço a torcer, insistindo nos mesmos erros. E muitos pensam que o dinheiro compra tudo. Como posso, então, ser altruísta para tais pessoas? Cada um tem que se redimir, daquilo que é. Mas estarei sempre ao lado daqueles que são simples e puros na sua conduta interior, ou mesmo não sendo simples, agem de forma correcta e sabem conter e gerir os seus impulsos destrutivos, e sabem ser humanos, na verdadeira acepção da palavra. Quanta ira já não passou por mim, quanta ira (!) raiva e frustrações, quantas questões me coloco no meu espírito, o porquê de me acontecer isto (?), ter asas e sentir-me atado e não poder voar. Quanta raiva investida em mim e o quanto isso não me destruiu, quanto não me fez e fará perder. Mas sei que tudo tem uma razão de ser, a serenidade tenderá a vencer. E mais do que me destruir, isso só me fez perder momentos e situações que eram justas de eu poder usufruir. E não é pelo facto de haver biliões de pessoas no mundo que estão em situação pior do que a minha que me faz acalmar essa frustração, é, simplesmente, porque eu apenas queria ser eu, e não me deixaram ser. E agora eu sou cada vez mais eu, e o destino me permita que cada vez mais eu seja. Que eu veja os meus inimigos a vacilar, que tenha tempo para isso, que eu viva o tempo suficiente para ver a injustiça a ser punida, que eu sem mover uma pena eu mova o mundo, ou será que é pedir muito? Que não haja um amor banal? Que esse amor seja especial? E lembra-te, não adormeças quando não deves, porque quando o fizeres será tarde demais, mas se acordares, acredita, alguém te protegeu, alguém pensa em ti, nem que não saibas quem é, acredita que por cada acção que tu faças há sempre um motivo, e aumenta a tua auto-consciência deste mundo humano, na verdadeira acepção da palavra, para que possamos viver em solidariedade, tolerância e realismo.

domingo, 9 de novembro de 2008

'Um mundo sem Deus converte-se num mundo de egoísmo' - observação a Zénit

 


Vou fazer umas observações. Antes de tudo temos que saber quem é Deus, e isso não é dado a saber aos sentidos de qualquer homem, mesmo de muitos que seguem e querem acreditar na Divindade, mesmo seguindo cargos religiosos. Acredito que para O conhecer-mos e O compreender-mos teremos que nos transcender. E não há melhor forma de nos transcendermos do que afastarmo-nos de tudo o que nos foi imposto pelos homens de uma maneira incorrecta, adquirindo para isso a maior visão do mundo e do Universo que pudermos ter, afogarmo-nos o mais profundamente, em conhecimento retirando de toda essa informação apenas a substância pura e essencial, destruindo mesmo o que é conhecimento falso, ultrapassando para isso as barreiras da nossa inteligência e finitude dos nossos sentidos, e mergulhar ao mesmo tempo no nosso interior, na busca de quem somos. Porque Deus tem que estar intrinsecamente ligado à Igreja? Só quem acredita em Deus, baseado nos dogmas da Igreja, pode conhecê-lo? Pois eu acredito que a minha Cristandade, que me foi legada, me levou e tem levado a compreender cada vez mais, essa Entidade infinita. Concordo que todos deviam conhecer o que de bom Jesus tem a nos dizer acerca de Deus e das correctas relações da humanidade. Mas acredito que há outros meios de chegar a Deus, mesmo que eu ainda não os tenha vislumbrado. A questão do ‘bem’ e do ‘mal’, qual a sua definição e o que significam esses dois conceitos, também é uma questão que deve imperialmente ser colocada e não é para ser respondida de maneira fácil, pois ela é uma questão essencial na relação com a fé e com o Deus puro e essencial, que rege o Universo, sendo Ele também o próprio Universo, estando em tudo quanto existe. E a Igreja, enquanto instituição, cometeu muitas faltas no passado, contribuindo para que se tivessem provocado muitos actos reprováveis no seu percurso ao longo da História, reprimindo os homens em excesso, levando-os a afastar do verdadeiro sentido de Deus, fazendo o mal também. Assistimos hoje à completa libertinagem em que se transformou o mundo sob a capa da liberdade do homem, a vida sem freios, que foram outrora excessivos no sentido da repressão que era imposta por esses dogmas e agora tende a levar a excessos opostos no sentido de que todo o homem é livre e deve fazer o que lhe dá ‘na real gana’ como se não houvesse uma consciência moral. Como que a humanidade quer afastar-se de algo que os reprimiu durante tanto tempo, a Igreja, e ao mesmo tempo afasta-se de Deus sem se aperceber. É tempo de a Igreja mudar de paradigma, buscar nas suas fundações, que foram Cristo, o verdadeiro sentido dos sofrimentos e alegrias da humanidade e a Verdadeira relação com Deus, e fazer transmitir à humanidade de uma maneira mais razoável e que seja assimilável pelos homens, os ensinamentos de Deus, de quem Jesus foi um dos símbolos desses mesmos ensinamentos. Foi Deus que nos permitiu chegar ao ponto a que chegámos. E então qual será ‘a voz da verdade’? Qual será ‘a voz dos valores’? A voz de Deus, certamente, e isso leva-nos a perguntar novamente: -quem é Deus? - Quantos se perguntam sem obter resposta. Certamente não estão em nenhum homem, jamais em mim, essas vozes, por mais próximas de Deus que estejam. Eu acredito em Deus. Tenho fé que Deus fala à humanidade na inteligência que nos deu, em todo o nosso ser, na relação que temos com os outros primogénitos e em tudo quanto existe e podemos sentir. Deus é a nossa vida, que deveria ser harmoniosa, mas não o é porque o homem não é perfeito como Deus. Há que elevar a consciência humana, ajudar na busca do sentido da vida quem está perdido, há que viver livre, respeitando o limite da liberdade do outro, das outras criaturas e seres do mundo, da natureza no geral, sabendo que nenhum homem que tenha visto a vastidão de Deus consegue fazer algo pela humanidade e pelo belo e único mundo que algum dia tivemos, se Deus não quiser. Para finalizar, este mundo de imagem e som, este novo mundo da comunicação,  ao qual todo o ser humano se maravilha e se rende,  deve ser posto ao serviço do desenvolvimento das sociedades que compõem esta terra, demonstrando-lhe que devem viver no máximo de equilíbrio possível, ser tolerantes uns com os outros, e que façam o que fizerem, acima do bem e do mal, está Deus, essa Eternidade, e que nós apenas somos seres perenes que tendemos a perscrutar o que haverá para lá do nosso fim. E assim sendo, somos livres até ao ponto que Deus quiser, e tenho fé que cada um terá que responder por si perante o que há-de vir, nenhum outro homem o pode fazer, porque não pertencemos a ninguém a não ser a Deus, nem mesmo aos nossos pais terrestres.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A vida não nos pertence

     Será que controlamos alguma coisa da nossa vida? Vemos o Universo por um prisma que nos foi legado. Tudo à nossa volta acontece segundo o que somos, segundo como agimos e pensamos. E somos profundamente incompreendidos, pelo sentir comum. As emoções à minha volta falam sempre mais alto. E mesmo que compreendam, isso não [me] serve de nada. Para muitos são os outros que estão sempre no lugar errado, para mim, eu não tenho lugar junto dos outros, eu estou sempre a mais, eu sinto-o e já não me podem negar isso, como alguma vez me fizeram querer. Eu vejo agora como nunca vi. Talvez seja uma lucidez passageira, não sei quanto tempo pode durar nem quanto mais posso aguentar assim, não sei o que será de mim. Muitos dirão, não estás a ver bem. Mas estou, por demais (!). E ninguém me pode tirar aquilo que sinto e vejo na minha mente. Quem luta comigo com sentimentos acaba-se por magoar [pelo menos tenho essa falsa ideia na minha mente]. Quando os sentimentos que me abordam são hostis, eu sinto-os em todo o meu ser, e a avalanche de sentimentos sucedem-se em catadupa, cegando-me. Mas em vez de reagir, lutando, fecho-me nas profundezas do meu interior, na esperança de que essa força oculta me proteja, acreditando que o silêncio é mais forte que a ira de quem me aborda. Tenho seguido a minha vida tentando ter esperança, de que tudo mude para melhor. Tomo a pílula da felicidade, receitada pela Dr. Sílvia Albuquerque e Castro, todos os dias da minha vida na esperança de que ela alguma vez me restitua aquilo que alguma vez foi genuíno [pelo menos penso que tive algo de genuíno, algum dia passado, na minha vida]. Tomo-a dia após dia, na esperança de que tudo seja menos doloroso, como se eu tivesse uma dor. E sei que não posso desistir, mas também sei que vou vacilar como um bêbedo quando tiver que ir à luta verdadeira, quando a protecção da sorte se desvanecer, quando eu não tiver um lugar onde me possa encontrar, quando me pressionarem ao ponto que já me fizeram de uma outra vez, a querer que eu ande, quando os músculos se me tolhem, a querer eu pense, quando tal não me é permitido, a querer que eu aja, quando estou asfixiado pelos sentidos, a atropelarem-me em lugar de me dar a mão, com compaixão [e eu não a aceito, porque tenho o meu orgulho de ser humano, o que me resta pelo menos]. Eu sou o veículo das emoções mais altas, daquelas emoções que fazem os homens alterarem-se não se conseguindo dominar, porque não foram treinados, nem foram talhados para isso, o prisma deles é outro, e nunca se questionaram sobre aquilo que os move, como se ainda fossem seres primitivos. E são eles quem destroem, mas na realidade sou eu quem me sinto o destruidor, destruo todas as pessoas que me abordam, e ‘eles’ ficam sempre impunes, a consciência moral não lhes pertence. O meu sentir não se dá em comunidade, o meu sentir é solitário. Sou como um ser selvagem que receia o homem, porque atrás da máscara de actor [tenho a convicção de que o homem é um actor neste palco do mundo social] que ele tem [eu penso que não a tenho] imagino aquilo que ele é na verdade, porque sei quem sou. Mas simplesmente imagino, e não posso sentir porque não me é permitido ter sentimentos de actor. E então é melhor esconder. Mas a mim não me é permitido esconder, como que sou um livro aberto ao mundo. Não me é permitida a coerência, porque mora o paradoxo dentro de mim, a contrariedade e o contraditório. E então a pílula da normalidade foi-me prescrita para poder interagir com o mundo social, porque o homem tem que ser um ser social, tem que ser como quem é, naturalmente, um ser social. E de certo modo com razão, não podemos excluir as relações sociais. Mas porque raio tenho eu de aturar quem não gosto? Porque raio se oferece um ‘passou - bem’ de amizade e alguns tentam levar logo o braço todo, e aproveitam para criar azedume, tratando-me mal? Que raio de lei da vida é esta que deixa impune quem faz mal a quem não merece? Qual a causa do meu mal - estar? Eu era feliz, mas quem será o culpado de me querer ver triste e ter contribuído para o meu mal - estar? Porque não é chamado à razão quem fez tal? E não me digam que não houve um ou vários culpados, que me antecederam e são a raiz da minha infelicidade (!) Pois… e agora aqui ando eu a contagiar a doença, a infelicidade que sinto, pelo tecido social que me envolve, quase toda a gente sem culpa directa no que sinto. Eu sou um clima de mau estar. Eu sou um furacão de mal - estar, e quem me pode evitar, evita, mas quando não podem fugir, ficam à mercê dos elementos destrutivos do furacão. E no fim, tudo o que eu faço recai sobre mim: se faço é porque o fiz, se não faço, é porque não o fiz. E fico só. Quantas vezes me pergunto: devo desistir? Quantos futuros eu não engendro (!) [quantas memórias eu não invoco para isso (!)] no meu pensamento de modo a que tente minorar os estragos, a ver se me reside a esperança nalgum caminho que eu ainda não tenha vislumbrado, algum caminho que seja transitável e viável para mim. Sinto-me impotente perante esta vida que não nos pertence, pelo menos na maioria das horas, perante algo que não domino mesmo que me pareça que compreendo. E resta-me ainda vida pela frente. Não sei quanto tempo mais. Sei que não interessa. Somos apenas números. Somos biliões na terra. ‘Foi mais um’. ‘Foi morte natural’. Simplesmente morreu. O interesse e a vontade de um não se pode sobrepor ao interesse do geral. Não me conformo de maneira nenhuma. E nem por isso eu sou um ser destruidor por tudo o que me fazem, fazem sentir. E se calhar destruo mais ainda, silenciosamente. Eu não posso ser o bode – expiatório de quem quer que seja, deste mundo (!). Alguns acham que eu considero-me excessivamente uma vítima sem o ser. Eu sei que transmito isso. Mas, na verdade, eu sinto - me uma vítima desta vida humana. Sei que nunca perdi um membro físico, nunca experimentei tal sensação, tenho os cinco sentidos, ainda, nunca tive miséria e fui normalmente assistido quando necessitei, e sei que devia ser uma pessoa normal. Pergunto-me porque não me sinto tal? O desprezo pelo que eu sinto, é o desprezo que irá circular pelo mundo, pelo meu mundo, e me destruirá paulatinamente como tem sido até agora. Deixem-me parar (!). Quem direcciona o mundo? Deixem-me respirar (!). Deixem-me ser quem sou (!), que eu não sou mais nem sou menos do que qualquer outra pessoa, fisicamente, simplesmente não nasci para funções que digam respeito ao âmbito social. Deixem-me viver como sou (!). Serei mais alto no pensamento e nas emoções, que não me foram permitidas manifestar, e aqui estou eu, agora. Terei presunção, para muitos ao dizer isso. ‘Se és mais alto porque não o provas?’ ‘Porque não és um homem de sucesso, se sabes assim tanto, se vez mais além da barreira do tempo?’ Eu não engano pessoas para estar no alto na vida, eu não atropelo, eu não desprezo, eu não destruo o mundo nem as pessoas, tento ser razoável [não me podem culpar pelos sentimentos negativos que provoco]. Muitos daqueles que dão uma imagem soberba, com discursos tão fúteis como o meu agora, na tentativa de conquistar poder e pessoas incautas, que, no fundo, são seres tão comuns como eu, apenas com o privilégio da massificação da sua imagem e capacidade de retórica, movem multidões e são tratados como deuses, como se fossem capazes de gerir os destinos do mundo. Pois, eu digo, a minha imagem não existe. Eu torno tudo complexo, onde tudo parece ser simples. E assim vivo mais um dia, quando na verdade eu morri mais um dia. É uma questão de perspectiva [Curioso, eu tenho as duas ditas anteriormente]. Sempre moram em mim infinitas perspectivas, e eu associo e volto a associar, visões e mais visões, elos, ligações, e tendo a formar histórias, novas perspectivas, tudo sem fim, não há volta a dar. Quem me trata é responsável pelo que me acontece, quer de bom [tanto melhor] quer de mau, quer de mau. Tal como eu não posso ignorar a minha mente [tudo o que penso e o que faz que eu seja quem sou] quem me cuida não pode ignorar o poder que tem, e tem que saber usá-lo. A minha vida não é simplesmente uma vida, não sou um boneco nas mãos de uma pessoa humana, se bem que, justamente, o sou na mão do infinito Universo, em ultima instância de Deus. E não me digam que não há culpados, como se tudo pudesse passar impunemente. E já que estamos a falar de Deus, diz-se que Ele ‘escreve direito por linhas tortas’, aí reside a minha esperança. Quem não fez, nem disse, nem agiu, nem esteve directamente relacionado com determinado acontecimento não pode ser culpado, mas quem agiu directamente, viu o que fez e fez mal, tem que redimir o seu erro, como eu penso que redimo os meus. Tenho trilhado este caminho, este que me tem ficado para trás. Podia ter sido um outro caminho, indefinidamente ao acaso. Mas quem se interpôs na minha senda de felicidade e me destrui-o o meu bom sentido, tem de ser notificado, e tem de justificar perante a sua consciência, mais do que a qualquer outro homem, o que fez. Tenho pena de quem o fez. Quantas rasteiras me pregaram (!) Tenho mais pena deles do que de mim, porque eles não merecem um palmo de terra neste mundo, quando eu já tenho direito ao Universo partilhado pelos seres que se redimem do que são. Se perdoo? Não, não tenho esse poder. Se sou presumido ao achar-me um dos mais altivos dos homens, talvez seja, mas pelo menos não sou arrogante.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A água que dessedenta

Procurais constantemente uma água que dessedenta. Mas a verdade é que tendes cada vez mais sede, mais necessidade dela. Essa água não vos é imprescindível, no entanto fazeis como se fosse. Tudo gira em volta desse desejo, por isso ireis morrer a lutar pelo supérfluo, e direis que é em nome de uma entidade, direis que é em nome da vida. Mas é em nome da inconformidade e da falta de sentido que trilhais caminhos, na busca de respostas. E mais, cortais braços e pernas e cegais, sobretudo tentais cegar os outros – atirais terra para os olhos de quem não se pode defender -, para que vós estejais acima de tudo, acima dos outros, esse é o vosso prazer, homens de topo que deixais vossos filhos na escuridão. A verdadeira água que dessedenta está na fonte eterna - nem eu sei qual é -, e não alcançável aos lábios do seres comuns. Muitos seres que nascem não conseguem enxergar essa fonte, sentem-se no direito de tudo, como se a liberdade lhes pertencesse totalmente, e seguem os desejos da moda, seguem a bebida que os integra numa sociedade que é falsa, e bebem o líquido que lhes tira a vida, ao contrário do que eles pensam, em nome de amizades que na realidade não existe. Vivemos lado a lado com a pureza e com a imundície. Mexeis na porcaria e isso dá-vos prazer. Que loucuras! Mas a quem se pode atribuir culpa de tais actos? Não se atribui, mas cada um assume os seus actos, nem que não veja que tal está a acontecer. Qual será o bom caminho, o caminho a escolher? Cabe a cada um procurá-lo. Não há saída, a verdade é que esta terra é um labirinto, mas sem saída possível enquanto seres perenes. Então a única saída que vejo como possível de ser alcançada é o fim, o nirvana, a eternidade do Universo. Podereis encontrar respostas, mas não encontrareis saídas. Podem prometer-vos saídas e esperança, mas tudo isso é falso, excepto a esperança que quando reside em vós vos faz acreditar mais um pouco de que algo faça sentido no fim de tudo, que os nossos passos não sejam em vão, na busca daquela água que dessedenta eternamente. A vida é tudo, a morte é nada. As leis dos homens não imperam, mas sim a lei do Universo. Um homem é um animal antes de tudo, e como tal age coerentemente com aquilo que é em primeiro lugar. Ele terá que se transcender para que os seus ritos animalescos sejam ultrapassados na compreensão do que o envolve. A verdade que tento alcançar faz-me voar mais alto, como penso que todos o terão que fazer, para alcançar a visão de uma águia. Sei que serei eternamente um ser finito. Sei que há forças antitéticas e paradoxais que regem tudo o que possa existir, sei sobretudo que na hora da minha fraqueza tudo de mau pode acontecer, se estiver prisioneiro. E temos de dar o braço a torcer porque sozinhos neste mundo não somos nada, temos de beber a água embotelhada. Mas essa água embotelhada, que me dessedenta por pouco tempo não me serve. E estou traumatizado, porque me fizeram passar sede. Não me quiseram matar a sede e agora aqui estou eu à procura da água que é o elixir da alma. Se eu pudesse, eu seria. Mas querem-me pôr a máscara de mau. Então controla-te (!) e verás que a maldade que vez em mim, mora em ti. Bebe dessa água, para esqueceres quem sou, porque se não vires quem sou agora, no fim será tarde de mais. E se queres pôr-me a máscara de bom então, duvida e olha novamente, para isso alcança o cume da montanha mais alta que houver, num dia límpido com o sol a brilhar por trás de ti, e vê, sente que na verdade ninguém é quem é, somos apenas reflexos dos momentos, um sistema que irá ser o que sempre foi, algo único que ficará na memória, enquanto a houver, que será parte do Universo no fim de tudo, como sempre. E agora sabes quem sou? Eu também não, mas tenho esperança. És animal, mas podes ir mais além se desejares fortemente. Mereces aquilo que tens e que és, e assumes com a vida, em última instância, aquilo que fizeres. Ainda pensas que podes voltar atrás? Nunca há retrocesso, há incomensuráveis caminhos, mas o que foi, somente é, e só te resta o que será. Mergulha nesse oceano de águas límpidas, é bom esse ambiente aquoso, sentes-te como se fosse o teu ambiente natural. Talvez um dia tenha sido, mas já não é, essa é a realidade actual, e agora caminhas em busca constante da água que te dessedenta, ora conscientemente ora inconscientemente. Eu caminho constantemente nesse objectivo que se tende a alienar. Começo a acreditar fortemente que alcançarei outro objectivo ainda mais inalcançável. Porque sempre me fugiu o que estava tão perto de mim, o que era mais fácil de obter, como se Algo me dissesse que tinha que seguir o caminho mais difícil? De quem é a culpa? Porque estou aqui sem poder voltar atrás? Estou sequioso e não sei qual o motivo, se acabei de beber água. Vou beber Água, novamente.

domingo, 12 de outubro de 2008

Oceano da eternidade

Mergulho, por vezes, no oceano da eternidade, nas questões dos oceano que é o Alfa e o Ómega. Em breve serei outra vez aquilo que nunca fui. Mas agora também não sou, e digo mais, nem serei. A eternidade é uma invenção do homem. E cada coisa ou acontecimento tem a duração que tem de ter. Para quê a insistência no que destrói? Para quê a liberdade máxima? Para quê a repressão máxima? Para que a moderação? Para quê tanta interrogação? Vives como se tudo nunca acabasse. Tenho consciência da mudança, que antes olhava com esperança e agora tanto me atormenta. Tenho consciência que tudo me ultrapassa e quanto mais sei mais ultrapassado me sinto. Sei que um dia deixarei de me reconhecer, deixarei de reconhecer o que está à minha volta, e isso tudo se resumirá a um momento. O prazo de validade que me rotula tende a encurtar-se, temo que tende a encurtar-se demasiado. Senhor, Tu que existes e não existes, Tu que crias problemas existenciais, porque é assim a minha vida? Universo, porque eu sou eu? Porque terei eu medo da dor? Sim, porque terei eu medo da morte se um dia eu fui o ser mais corajoso que existiu à face da terra e tal não temia? Porquê, Universo, Senhor, me falas dessa maneira, me abordas tão incompreensivelmente, para certos homens me chamarem esquisito? É a minha química corporal, é esse o motivo de tudo o que se passa, só pode ser. E essa química tem explicações e mais explicações, de interacções sem fim, da mente que com o corpo são uno, da ligação com os seres que nos envolvem. Estou cansado de nadar nesse oceano. Universo, Senhor, porque eu sou quem sou? Porque sinto como sinto sem nunca ter pedido? Porque, se pedi, eu tive esse desejo? Porque tive eu de fazer parte da legião dos homens? Só perguntas e perguntas que temo não encontrar respostas, logo são perguntas em vão. Em vão é tudo o que existe. Em vão é este Universo. É tudo em vão se eu sentir que é em vão. É em vão para mim, somente. É aparência a superioridade, porque superioridade é mediocridade e falsidade. É anti-autosobrevivência pensar assim. Tem que se matar esse vazio, tem que se matar (!), afogar as questões existenciais em quatro paredes, ou então em campo aberto, tanto faz, o que interessa é que ninguém veja, ninguém veja, para ninguém vir a saber, para os espíritos não ficarem inquietos. Universo, Senhor, porque andam os espíritos inquietos? Universo, Senhor, és Tu que geres esses espíritos? És Tu que os fazes interpretar estas palavras como interpretam? És tu que os fazes agir? És Tu que obrigas a que te adorem, significando isso, que fazem o que lhes der na real gana, sem ter que ter qualquer receio das consequências porque todos acham que ficam impunes? Onde está a justiça final? Onde todo o ser que agiu bem é resgatado e o que agiu mal é condenado? E eu, pensei que agia bem e vejo-me como que um condenado, porquê? Eu sou um viciado nas questões, um viciado na problemática existencial, mas a minha voz não chega ao céu, e, mais uma vez pergunto: porquê? A minha Filosofia barata, como se de um Filósofo masoquista e suicida se tratasse, não é acompanhada, como se não tivesse valor. Talvez seja mais fácil atirar a pedra a um moribundo, como se quem a atirasse não cometa erros, e seja ele o ser que age correctamente. Pensai nas vossas acções, muitos não pensastes nunca, pensais que agis porque quereis, e tendes uma conduta que vos rege, é verdade, mas agis sem saber o que vos move, e olhai que eu também não vos posso responder, sou um simples homem, orgulhoso e sem saber ou poder defender esse orgulho, como se o mais básico e elementar princípio me faltasse, o princípio da coerência. Mas vê – de que tudo tem sentido, até aquilo que parece perder o controlo e é incoerente está controlado. Como (?), não sei, mas está. Se tudo é permitido neste mundo, também o que é esquisito o é, o que parece não fazer sentido também o tem, a confusão faz parte, e tudo nos afecta directa ou indirectamente, tudo vos afecta. E eu, eu só não queria ser mais um, não quero ser carne para canhão, não quer ser vítima. Mas a verdade é que sou um bode expiatório, e no entanto não sou quem sofro mais, mas isso não me satisfaz, apesar de eu ir sobrevivendo. Não me digam que não o sou – um bode expiatório -, porque sou, como tantos, e não posso fazer nada. E tenho a minha consciência a frente daquilo que sou, tenho na minha consciência a essência daquilo que sou, por isso me questiono aqui e agora, como me questionei sempre sobre o porquê daquilo que me acontece, do que sou, se o for - a consciência do eu sobre o eu -, e do que acontece à minha volta e do que são os outros. Um terceiro nível de consciência que analisa o eu que pensa sobre o eu. A terceira pessoa da trindade que somos, o grau mais alto a atingir, será? Mas eu não tenho face. Eu não me aparento, porque eu não tenho aparência, tal como o Universo não tem. Termino com um ámen. ‘Assim seja’, para quem não entendeu, como se eu soubesse. Porque duvido? Porque não dou o certo por certo? Talvez porque reina o incerto. Porquê o ‘talvez’? Porque nada é certo, constante, infinito. Até quando te servirá esse paradigma? Somente enquanto as respostas corroborarem esse paradigma, somente. E quando um dia vires mais além? Esse dia já será tarde demais para se mudar. Ou talvez não, não me compete a mim dizer, acho que não, tudo depende. É tempo de me secar. O Oceano estava bom, mas não é o meu meio natural, se eu fosse um peixe (!!!)…

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Enya - may it be

 


Enya - may it be                       -              lyrics



May it be an evening star
Shines down upon you
May it be when darkness falls
Your heart will be true
You walk a lonely road
Oh! How far you are from home

Mornie utúlië (darkness has come)
Believe and you will find your way
Mornie alantië (darkness has fallen)
A promise lives within you now

May it be the shadows call
Will fly away
May it be you journey on
To light the day
When the night is overcome
You may rise to find the sun

Mornie utúlië (darkness has come)
Believe and you will find your way
Mornie alantië (darkness has fallen)
A promise lives within you now

A promise lives within you now

Refúgio

 


Quando tenho medo, refugio-me, se puder. Tenho medo de me perder, por isso me refugio. Refugio-me para saber quem sou. Ainda tenho um refúgio! Ainda tenho onde me abrigar! Ainda sei onde me encontrar! Não sei até quando, mas tenho, agora. Não quero estar sozinho, por isso me refugio. No refúgio me encontro com a humanidade. No refúgio reside a minha esperança. Porque neste mundo já não se pode ser quem se é, temos que ter um refúgio. Se refúgio significa abrigo, o abrigo é onde nos sentimos bem. E eu refugio-me das pessoas quando não estou bem junto delas, mas se pelo contrário quando esse meu refúgio deixa de ser o sítio onde me sinto bem, eu procuro outro refúgio. E, então, refugio-me na multidão e/ou no encontro com um amigo. Mas há refúgios que são breves, num curto espaço de tempo o deixam de ser. Quando trabalho, penso no refúgio do meu descanso, quando descanso necessito do refúgio do meu trabalho ou de um trabalho, da luta pela vida, da construção de um novo refúgio, porque nada é imutável na imensidão do tempo. E no meu refúgio eu tenho muitos refúgios. Há momentos em que os meus refúgios parecem desaparecer, todos. Nestas palavras eu me refugio, no encontro com os que lerem estas palavras eu construo novo refúgio. E ao pensar eu me refugio, no passado me refugio, no futuro tento criar o meu refúgio. Refugio-me na saúde, quando a tenho, refugio-me na doença e quando estou alegre, refugio - me. Os cinco sentidos são refúgios, que em certos momentos mais parece que não os queríamos ter. A música agradável torna-se incómoda e doentia - talvez porque tudo tem a sua duração e máxima intensidade, o clímax, o êxtase - nada pode demorar mais do que o tempo que deve durar, e cada um de nós tem o seu tempo. Então é momento para fazer uma pausa e refugiarmo-nos no silêncio. Assim como o refúgio do toque, tão imprescindível para que saibamos sentir o mundo, noutra linguagem, que se torna tão doloroso na sua ausência, ou pelo contrário, insensibilizados pela sua abundância desenfreada. Mais valeria não sentir o toque. Pensamos no outro como refúgio, não pensamos que no fundo pertencemos a nós próprios mais do que a alguém, e o refúgio nem sempre é o outro, e por vezes, ou muitas vezes, é tudo menos o que pensamos que é, porque nada é o que é, para sempre. Mas precisamos tanto de alguém… de nos dar e de receber, de encontrar com quem possamos compactuar – e o mundo muda, as pessoas muito, mas muito mais! Somos tão diferentes (!) que isso me chega a fazer sentir a solidão mais profunda, porque no fundo, se calhar, sou eu que o sou, apenas eu. Imiscuímo-nos nos cheiros que nos envolvem e chegamos a um ponto em que já não nos apercebemos mais desses cheiros.  Cheiros que nos alteram a percepção. E essa percepção por vezes torna-se de tristeza. Tristeza da ausência daqueles cheiros que cheirámos naqueles momentos que foram o nosso refúgio. Mais valia não cheirar-mos em certos momentos, porque isso tira-nos vida, como se o simples recordar desgastasse. Desgasta o nosso ser, ver que não podemos abranger sabendo que há um refúgio para lá daquele horizonte que nos fascina, saber que há aromas que nos iriam revigorar e nos devolveriam a alegria, passageira, porque seriam novos – se conseguirmos cheirar, ainda. O paladar é um refúgio também. Que também se acaba por perder, porque a vida é mesmo assim. Afogamos a alegria no comer. Outrora essa escassez quase nos tirava a vida - se bem que alguns comem para viver, os que se dizem inteligentes (para si próprios), os degustadores, como que intocáveis, onde o suor de homens que trabalham árduo enfrentando um sol abrasador para colher o fruto da terra é comprado por uma bagatela (como se eu pertencesse a esse grupo de seres), como se já nem o alimento fosse o mais importante, como se eles percebessem de qualidade dos alimentos, tanto quanto eu sei o que estou para aqui a dizer (como se fosse vergonhoso ser-se altivo na vida) mas deve haver homens privilegiados... deve mesmo -. Nós não somos sistemas isolados dos que nos envolvem, e o outrora ainda é o agora - basta abrires os olhos - porque nada podemos fazer acerca disso, a maior parte das vezes. Afogamos a tristeza no comer, um refúgio como outro qualquer. Deixámos de saborear o verdadeiro gosto da vida, o refúgio na produção intensiva, do desperdício, da técnica e da ciência, tudo isto, fantástico e útil. Diria que é magnífico este mundo novo, onde a inteligência comum dos homens atinge patamares - para muitos, que até eu, posso não conseguir imaginar -, mas que não deixa de estar longe da perfeição que nunca se chegará a atingir, mas cheio de funcionalidade, de perfeições confinadas a momentos e espaços determinados, a sistemas e pessoas que criam beleza, batem recordes, fixam essas perenes perfeições do mundo numa tela, criam perfeições, o clímax, o auge, êxtase de todo um caminho percorrido em busca de um objectivo, por tantos não alcançado, esquecidos no comum sentir dos tempos. Enquanto pudermos degustar o que sabe bem e enquanto o organismo nos devolver satisfação pelo que degustamos então devemos continuar a viver se nos for permitido. Desejo não chegar ao ponto em que os alimentos já não saibam o que souberam no passado, onde tudo se torna sensabor, e tornar-me um ser vegetal. Aí a vida não faria mais sentido, visto agora desta perspectiva, neste momento - mas ai serei velho e terei vivido, a meta que se dignam de atingir o que estão talhados para tal, o futuro não nos pertence de todo… -. Não valeria a pena comer sem sentir o paladar dos alimentos. Mas há sempre um refúgio…eu consigo ver isso, ainda. Eu vejo, e agradeço ainda pelo que vejo, por isso serei um ser normal – afinal estou a dissertar sobre o que sinto, pelos meus sentidos, percepção inigualável do mundo, uma maneira inimitável de se abrir perante ele, ou pelo contrário, apenas muito comum. Não interessa… -, se bem que me refugio muito por achar que vejo demais, quando na verdade verei mas é pouco – verei aquilo que vir, e esse sou eu. Não me deveria achar estranho, mas tenho receio de ser abandonado, que me julguem pelo que não sou, que perca a minha dignidade ou que não me tratem com a dignidade que eu trato os seres que me envolvem, como já alguma vez senti perder -. Eu vejo, e não há sentido inigualável ao ver! Mas de que me serviria ver se não tivesse os outros sentidos? E é tão agradável, neste momento, esta noção mental que me percorre o corpo, de que eu sou todo uno. O que vejo faz-me recordar cheiros e vice-versa, faz-me recordar paladares e vice-versa, toques e vice-versa, sons e vice-versa, e tudo ao mesmo tempo também, a consciência mental a evoluir sobre a consciência física, o que sabemos sobre o que somos enquanto seres físicos, a construir castelos na mente, o reconhecimento de que somos tão pequenos enquanto seres físicos, cada vez mais, e a aceitar cada vez mais também  o que vier, o atingir de patamares cada vez mais altos ultrapassando um estado em que não nos podemos contradizer - algo fala mais alto e não nos é permitido tal -, porque sou quem sou, e só tenho que seguir sendo quem sou, porque não posso ser outro, signifique isso o que significar. Eu vejo a humanidade, sim, eu vejo! Ainda… porque o fim está sempre presente, porque todos o têm de aceitar, quer queiramos quer não, se bem que poucos pensem conscientemente sobre tal, como se isso fosse algo a ultrapassar, que pode ser vencido. Esse é o lema da vida humana que faz seguir os homens, quebrar barreiras, barreiras de conhecimento, descobrir tudo o que se possa descobrir no espaço de uma vida, sempre a pensar na continuidade - como se a liberdade fosse infinita, como se não houvesse ‘senão’, como se não houvesse a contrapartida, o efeito secundário -. E o equilíbrio é tão subtil! Por vezes parece simples de mais para perceber. Mas é curioso como dentro dessa simplicidade, há uma grande complexidade, que dentro do que já parece expectável está o incerto, a recombinação de tudo, e que tudo faz sentido, apenas agora, e na verdade há que aproveitar (talvez amanhã já não diga o mesmo…). Dentro da visão da humanidade não cabe o espectro de que há a antítese do seu lema, como se houvesse a contradição em tudo, a maioria das vezes implícita. Faça o que se fizer, a vida foi como foi, é como é, em função de tudo o que existe, se sou o que sou, sou-o porque outros me antecederam, e outros me envolvem e aumentam esta consciência humana, da qual faço parte, e me exprimo por ela assim. Agradeço aos que me mostram o que eu consigo ver, o mundo, como se ele fosse perfeito, o mundo virtual que eu reconstruo na minha mente. Agradeço aos que e às que – como se elas fossem outro mundo, a metade que completa o puzzle, o pólo oposto, o yang da humanidade - me fazem sonhar, aos que me criam refúgios, onde me posso encontrar, onde a minha vida tem sentido, àqueles que normalmente são anónimos e os posso conceber na minha mente como seres que me estimam e a quem eu estimo, como não poderia ser de outra maneira.

E refugio-me das mágoas. Afasto-me de quem me pode magoar. E é quem conhecemos que nos magoa, muitas das vezes quem é próximo de nós,  porque nos conhece ou deveria conhecer, e, sendo assim, não deveria dizer ou fazer aquilo. Na verdade é duro de mais, quando sinceramente, dizer: ‘Amigo’. Isso significa uma forte ligação que pode facilmente ferir. Alguém a quem nos abrimos, que nos conhece bastante mais que os outros e um dia troça de nós, nos prega uma partida sabendo ou devendo saber que não devia fazer tal. Vê o seu erro e não o quer admitir, e não pede desculpa. Mas não faz mal, da minha parte, tudo passa. Eu arquejo com os meus erros, assim como os outros terão que arquejar com os deles. Eu também magoo sem me aperceber, sei-o. Mas não sou inimigo, jamais o serei, de alguém, quem quer que seja. Sou demasiado perene para tal. Mas lutarei para que tudo se equilibre, para que haja sincronia, para que possa ter o meu lugar, o meu refúgio. Não podemos agradar a gregos e a troianos. E até gregos e troianos têm muita coisa em comum.

Tenho o desejo de encontrar o meu refúgio.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Despido de mim

 



 

            Despido dos preconceitos e dos estereótipos, único, logo original e inimitável, este sou eu: quando só me encontro com as palavras, com a minha alma e a minha consciência, quando afastado do que é físico, absorto, não prestando atenção ao que me envolve proximamente (talvez já conheça esse espaço), afastado das emoções – longe do bater do coração que nos domina, na realidade – e de uma aparência que me contradiz – como se eu fosse um ser humano horrível; com o passado na minha mente e com a extrapolação das minhas experiências - que não podem ser manifestadas de outra maneira senão por esta -. Dispo-me, a miúdo, deste mundo externo, das sensações envolventes, para ver mais além das coisas, para penetrar no mais profundo do meu ser, onde as regras são as minhas (e talvez, muitas delas, sejam as do Universo), onde estou em sintonia com uma energia poderosa que envolve e ao mesmo tempo está em todos os seres, o Universo no geral. Energia, essa, que tudo move, a essência da alma, a sintonia dos seres que existiram, existem e hão – de existir. Dispo-me aqui e agora, assim como o faço em muitas ocasiões da minha vida, dispo-me perante os desconhecidos, e conhecidos, se os houver. E então sou mais psíquico e metafísico do que físico (e não sei se serei um ser ou uma entidade transcendente), e só assim as pessoas me podem conhecer - se é que alguém me conhece - as privilegiadas, se é que há algum privilégio em mim, como se um ser sagrado se tratasse - se é que há algo de sagrado neste mundo ou no Universo,  ou então é tudo sagrado -. Despido de mim, eu domino em vez de ser dominado, eu sou rei e não sou servo, sou forte, porque não tenho aparência - e o inexplicável e desconhecido gera admiração e temor -,  e estou nuzinho de todo, como Deus nos põe no mundo. E desculpem a soberba, agora. Na verdade, quando não estou despido ando roto e esfolado, com o cabelo desgrenhado, todo desalinhado, com fome e com sede, como se até o próprio trabalho me fosse negado, como se o mundo não me pertencesse e tivesse que pedir licença a alguém até para respirar. Aqui estou eu, agora como tantas vezes, este sou eu, esperando que o mundo me abrace até ao fim, esperando simplesmente, sem fim, até quando acabar. Porque há um princípio e um fim, que será quando eu não puder voltar a vestir – me. E vou como vim.