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domingo, 30 de setembro de 2007

Conversa de um Ensimesmado (2003)


          [Demasiado concentrado em mim] Ensimesmado, assim ando sempre. Faço um esforço enorme para tentar sair desta concentração doentia. E a verdade é que não consigo sair dela, não consigo traduzir verbalmente as ideias que passam pela minha cabeça, não me consigo exteriorizar. É como se estivesse bloqueado. E quando tento exteriorizar-me é como se estivesse a arrancar alguma coisa do meu interior, a custo. Na minha mente passam pensamentos que diria anti-sociais, sou averso ao convívio social. Criei-me muito afastado do conceito social, talvez daí esta minha aversão, sinto-me melhor sozinho. Os meus pensamentos são profusos, intensos, mas muito misturados o que os torna confusos. Na minha cabeça passam pensamentos do tipo: “ninguém pode parar a evolução da humanidade.”; “Não tenho fé nos homens, vejo o seu futuro com pessimismo.”; “ vejo injustiças que nunca terão fim, homens que trabalham duramente a troco de um punhado de dinheiro e outros a usufruírem do trabalho dos primeiros, com uma vida fácil.


            Quando tento abrir a boca acho que não digo nada de jeito, nada de interesse. Raramente vejo o meu futuro com optimismo, penso mesmo que jamais serei normal, ou melhor, jamais me sentirei normal. Conheço-me bem, e sei que não sou como os outros, mas não aceito essa diferença. Queria partilhar valores com os outros, mas os meus valores não são iguais aos do ambiente social em que vivo, parece-me mesmo que nem tenho valores. Compreendo cada vez mais a minha situação mas estou mais impotente para lutar contra ela à medida que o tempo passa. Tenho medo da loucura. Às vezes penso que devia fazer uma loucura, mas falta-me a energia. Não me queria apagar, passar por esta vida sem ser reconhecido socialmente, e essa é uma meta que a maioria das vezes me parece impossível. E esta insatisfação corroí-me, ter constantemente a minha mente com pensamentos de que sou inferior, de que não sou capaz. E há momentos em que a dignidade parece-me fugir. Sinto-me humilhado em mim próprio, e sei que não há razão para isso, ou haverá?


            Para que sinto o mundo da maneira que sinto, tão intensamente? A minha percepção corporal ou física do mundo anda distorcida. Ou será o mundo exterior a mim que anda distorcido?


 

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Alegoria da Gruta

                         Alegoria da Gruta


 


         Que Protectoras que são, num dia chuvoso ou fresco ou escaldante. Que belas aquelas grutas! Que calor emanam nos dias frios de Inverno! Que frescura nos dias quentes de Verão! Muito frequentemente estamos perto de alguma. O desejo de a explorar sobe-nos à cabeça. Mas por haver sempre riscos temos que ponderar... e por vezes ateimamos e perdemo-nos por elas a dentro ou simplesmente agasalhamo-nos do mau tempo ou então desistimos antes de tentar a aventura ou depois de ter ponderado. Em algumas é preciso entrar de rastos, enfim são as mais difíceis a par com outras que são autênticas ratoeiras. Umas encontramo-las em terrenos pouco montanhosos entre densas ou raras florestas. É interessante que, com o avanço dos desertos, já as encontramos em descampados.


            O homem de hoje já não explora qualquer gruta como outrora, que explorava qualquer uma. Não, hoje além do aspecto que ela apresenta há outros factores que contam para a decisão dessa exploração. Há o factor psicológico, isto é, a predisposição do indivíduo face à gruta. Também é verdade que em certos casos em que o tempo anda agreste ou escaldante e quando é necessário agasalhar-se não se olha a nada de factores, acontece como primitivamente. Muito geralmente, hoje, já se vai bem equipado sempre que se pretende explorar uma dita cuja. Muitas vezes acontece, quando há muitas, umas muito perto das outras, a decisão torna-se ainda mais difícil, de tal modo que se gasta mais tempo a apreciá-las do que a explorá-las, se é que se chega à entrada de alguma depois de tanta apreciação. Outras vezes há um deserto de grutas, isto é, não se encontra nenhuma, que é o que se passa com mais frequência.


            E o cúmulo dos cúmulos (!): não é que há muitas em que é preciso pagar para entrar...