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Aquele sítio. Aquela jóia escondida. Aquela memória que há-de residir em
mim até que a minha mente volte a pertencer ao nirvana. Aquela memória
sem fim. Desde aquele dia, que não posso precisar - porque a memória não
é precisa, como o tempo, que foi inventado –, que pus o meu passado
naquele local, a minha memória, para que não me perdesse. Aquela é a
minha caixa negra, que perdurará, mesmo depois de eu deixar de existir. E
então, quase que me esqueci de quem era, quando tudo desabou sobre mim.
Pensei que nunca mais me fosse encontrar, mas aquela caixa, naquele
local, fez – me recordar outra vez. Aquela jóia (!). Aquela força da
natureza, que protege, que nos guia - qual estrela cintilante que nos
guia -, porque só nós sabemos interpretar o seu movimento. Alguns nascem
como que com todos os direitos, e eu nasci com alguns que me permitem
estar aqui e agora, sendo quem sou. Alguns nascem num berço de ouro, mas
eu aproveitei o simples berço de madeira tosca que me foi reservado
para singrar nesta vida - como se eu tivesse chegado a um patamar
elevado [Na minha mente cheguei, e estou voando]. Eu depositei tudo o
que tinha naquela jóia, quando tive algo. Eu guardei e dei valor ao que
já não parecia ter, aproveitei o que já não servia aos outros para que
tivesse alguma coisa, como se fosse um vagabundo, aproveitando os
farrapos dos outros. Eu vivo (!). Eu o devo a quem não conheço. Eu
partilho o meu mundo, com quem partilha, este, comigo, esta terra, a
sabedoria de quem sabe inventar e me dá asas para que eu possa voar e
ser uma Águia outra vez, tal como uma Fénix renascida. Alguns dão asas
aos desejos, porque tudo lhes é permitido, não se abstendo de tal, não
sabendo o que é a repressão, a recusa ou a negação, nem a contenção, nem
a espera do reforço, tudo o que querem têm, ou então pensam ter tudo
quando na verdade não têm nada. E eu pergunto-me porque não tenho o que
quero, querendo eu tão pouco? Porque terei que ser um indigente,
aproveitando aquilo que outros utilizaram e deitaram fora em condições
de utilização, em nome da inovação, de dar o máximo que se puder no
espaço de uma vida, consumindo sem freios o que devia ser preservado
para outros, como se existisse o seu direito, que merecem usufruir de
uma terra bela por muito mais tempo e que se vêem na contingência de
sentir que nasceram como se fossem carne para canhão, extirpados dos
seus desejos mais básicos, nascidos não com amor mas por uma casualidade
do Universo que possivelmente os desejou para equilibrar algo que
estava em desarmonia, passando por esta vida sem saber porque respiram,
porque vivem, porque bate os seus corações [como se eu soubesse…] – como
se eu estivesse a, ou pudesse defender quem quer que seja, como se eu
os conhecesse. Não os conheço, mas sei de que lado dos bastidores estão
quando eu estou fora de cena, eu conheço o outro lado dos bastidores.
Vejo como esses actores vêem e sentem essa realidade que eles criam,
vejo que a realidade é uma esquizofrenia, onde se vêem coisa, ouvem
coisas, que acabam efectivamente por acontecer, muitas das vezes, neste
fantástico mundo humano. Vejo que uns são esquizofrénicos e conseguem
viver em harmonia com o mundo [social] e conseguem ser construtivos e
deixam – nos viver, eles são úteis. Outros são depreciados a começar
pelo nome que lhes é atribuído, porque na verdade não são compreendidos
por quem não lhes é inerente a sabedoria nas suas vidas, os pseudo –
inteligentes e pseudo - sabedores. Toda a arte destes pequenos grandes
génios [pequenos porque não difundidos] é desvanecida por quem se pensa
inteligente [e se pensa o mais humano dos homens, quando na verdade é um
parasita da sociedade, tanto quanto os inúteis que sofrem pela
marginalização e incompreensão], que diz que os que querem ajudar e os
afundam cada vez mais. Mas afinal o que é a realidade? Uma vida
esquizofrénica e paranóica é o que é, e cada vez mais se está a
transformar a sociedade. Vejamos a música, vejamos a imagem, a
virtualidade, a informação a circular, o caos, a entropia, querendo
significar entropia como desordem do mundo da informação. Os homens
gostam de tanger os limites, pôr-se à prova, quando a prova já está
predeterminada. Os homens gostam de alargar limites. Mas o limite
existe. Assim como existe o limite do dia, o homem assim o delimitou. E
amanhece como se o fim estivesse próximo. Límpido e frio, ou cinzento,
quente ou como for, este é o meu amanhecer hoje, amanhã terei outro e
serão cada vez mais iguais. Há tantos amanheceres quantos homens habitam
esta terra, que será injusta enquanto existir, que terá sempre dois
pólos, a opulência e a miséria, a alegria e a tristeza, o bem e o mal,
enquanto existir esta terra. Nós somos o sentido e o limite, o princípio
e o fim. E tudo será como é enquanto existir a memória do homem,
recordada pelo homem, que falará para si enquanto existir. A memória. A
jóia que cada um deve utilizar quando é mais necessário. Chamem a isso
esquizofrenia, um espaço ideal entre a memória e o sonho, um mundo
paralelo à realidade, que por sua vez é outra realidade. >>